O Universo precisa de limites?

Estadão

13 Outubro 2010 | 09h30

Já que o momento é de ressaca de feriado e entressafra eleitoral, vamos aproveitar para nos distrair com um pouco de conversa de boteco — ou, na verdade, um similar cosmologicamente razoável.

Há algum tempo, o leitor Eduardo Roberto deixou,

Documento

que argumenta que o fim do Universo está próximo (se considerarmos 5 bilhões de anos algo “próximo”).

A ideia de um Universo  com limites — começo e fim — tem lá seu apelo: praticamente tudo em nossa experiência começa num momento e termina em outro (incluindo nossas vidas!). Então, se eu acabo, por que o Universo seria diferente?

Claro que generalizar demais a partir da experiência pode ser um erro — como o bebê, que se acostuma a ganhar carinho toda vez que dá um berro e esperneia, acaba aprendendo, em algum momento da dura jornada rumo à vida adulta. Generalizações só  ganham força se tiverem o apoio da lógica e de fatos externos à elaboração original.

Uma tentativa de concluir pela lógica que o Universo teve um início vai mais ou menos assim: se o Universo não teve um começo, então o passado é infinito; se o passado é infinito, então um tempo infinito precisa ter transcorrido para chegarmos aqui, ao presente. Como um tempo infinito não acaba nunca, o presente é impossível. Mas essa conclusão é absurda e, portanto, o passado não é infinito e o Universo teve um começo.

O argumento, no entanto, é furado: a possibilidade de o passado ser infinito não implica que ele contenha intervalos infinitos de tempo.

Se a ideia parece estranha, pense no conjunto dos números inteiros (…  -3,-2, -1, 0, 1, 2, 3 …), e imagine que a parte negativa da sequência corresponde aos instantes do passado.

Agora, está claro que, não importa quais os dois instantes que se escolha, entre eles sempre haverá um intervalo finito de tempo. Alguém ainda poderia insistir que a distância até a origem é infinita, mas o argumento é exatamente o de que a origem não existe. Então, por que estamos falando nela?

Mas se a lógica não ajuda, os fatos parecem indicar que o Universo teve, sim, um começo: há a evidência física do Big Bang, sob a forma do fundo cósmico de micro-ondas. Pode-se imaginar, no entanto, que a grande explosão tenha sido apenas um episódio numa história maior, e não um “início” em termos absolutos.

A ideia do fim, tal como defendida no artigo mencionado pelo Eduardo Roberto, parte de uma pressuposição lógica: se o Universo é infinito no tempo, então tudo que pode acontecer, acontece uma infinidade de vezes (ecos do Eterno Retorno de Nietzsche).

Só que, se tudo o que pode acontecer, acontece, então qual o sentido de se falar em probabilidades? Num tempo infinito, a chance de qualquer coisa é sempre 100%: mesmo que você não ganhe na Mega-Sena hoje, daqui a um infinitilhão de anos, quando os átomos que formam seu corpo, o planeta Terra e o bilhete de loteria se reencontrarem, talvez aí você ganhe. E, se não nessa vez, então numa outra, mais um infinitilhão de infinitilhões de anos adiante!

Agora, se o conceito de probabilidade não faz sentido, então as próprias leis da Física não fazem sentido. Mas as leis da Física funcionam. Portanto…

O argumento é interessante. Porém, tem problemas que não vou conseguir explorar a fundo aqui.  Mas menciono dois deles: primeiro, pressupõe uma ligação muito automática entre “funcionar” e “fazer sentido”; segundo, parte de uma generalização, talvez indevida, do próprio conceito de “fazer sentido”.

Se o apoio na lógica falha, então que tal o apoio nos fatos? Para isso, será preciso esperar mais um pouco…