Os números Potemkin

Estadão

06 Dezembro 2010 | 09h30

Um livro que saiu recentemente nos EUA e que merece uma tradução urgente é Proofiness, de Charles Seife, professor do curso de Jornalismo da Universidade de Nova York. A obra é um divertido, instrutivo — e, às vezes, desolador — passeio pelas maneiras com que números são usados para obscurecer, e não esclarecer, as mais variadas questões, desde o verdadeiro estado da economia de um país à melhor marca de creme hidratante.

Seife começa o livro citando o famoso (ou infame) discurso em que o senador Joe McCarthy, nos anos 50, disse possuir uma lista com “205 comunistas” que trabalhariam no Departamento de Defesa.

A suposta lista foi o catalisador de uma onda de caça às bruxas que tanto dano causou à cultura americana, e Seife, além de lembrar que ela simplesmente não existia, chama atenção para o jogo retórico de McCarthy: “205”. Por que não 200, 207 ou 211? Ao pendurar um número aparentemente exato em sua retórica, McCarthy deu peso ao blefe.

Isso porque as pessoas tendem a levar números a sério, e números quebrados mais a sério que números redondos: se eu lhes digo que no último mês a audiência deste blog aumentou 10%, você provavelmente suporá que estou fazendo uma estimativa; se eu lhe disser que ela subiu 11,37%, você corre o risco de achar que se trata de um dado exato, e não de algarismos digitados ao acaso (o que estaria mais próximo da verdade, aliás).

Uma expessão que o autor adota no livro é a de “Número Potemkin”, a partir da lenda de que o ministro russo Grigori Potemkin teria construído cidades cenográficas para enganar a imperatriz Catarina, durante uma visitra da monarca à Crimeia.

Diz a lenda que, à beira das estradas percorridas pela imperatriz, foram erigidas fachadas coloridas que imitiavam vilas e cidades reais. O objetivo era apresentar a Catarina uma ideia falsa do nível de desenvolvimento da região.

“Números Potemkin”, de acordo com Seife, funcionam da mesma forma: dão uma impressão de solidez científica e precisão, mas são ocos e, muitas vezes, induzem a acreditar em bobagens.

Veja, por exemplo, o gráfico abaixo:

Charting Software

Nele, eu tracei uma correspondência entre os protagonistas dos filmes de maior bilheteria mundial dos últimos sete anos — e de 2010, até agora — e a variação do PIB dos EUA.

Como se vê, filmes de pirata (mais exatamente, da série Piratas do Caribe) são indutores de estabilidade econômica. Já a maior variação positiva se deveu a um episódio da série Harry Potter (Cálice de Fogo), o que gera otimismo para os próximos dois anos e uma perspectiva de recuperação econômica no hemisfério norte. Também seria uma boa ideia do Federeal Reserve tentar bloquear a relização de novos episódios de Toy Story.

Espero que o ridículo da correlação apresentada no parágrafo acima seja autoevidente.  Mas correlações não menos absurdas nos são apresentadas quase todos os dias, pela publicidade e por “especialistas” que ou não sabem do que estão falando ou que, na verdade, têm interesses particulares e/ou uma causa ideológica a avançar. E, como vêm embaladas em números quebrados e gráficos coloridos, muitas vezes não nos defendemos delas como deveríamos.