Os quebra-cabeças de Moscou

Estadão

23 Julho 2010 | 09h01

A notícia (que passou quase despercebida) dos 35 anos da primeira missão espacial conjunta entre Estados Unidos e União Soviética, quando as cápsulas Soyuz 19 e Apollo 18 se encontraram no espaço, me fez mergulhar nos armários aqui de casa em busca de um livro que acho que é meio raro, The Moscow Puzzles.

Diz a introdução: “O livro que o leitor agora tem em mãos é a primeira tradução para o inglês de Know-how Matemático, o melhor e mais popular livro de enigmas jamais publicado na União Soviética. Desde sua primeira aparição em 1956, houve 8 edições, bem como traduções do russo original para o ucraniano, estoniano, letão e lituano”, além de edições fora da URSS, incluindo França, China e Japão.

A primeira edição americana é de 1972, e uma busca na Amazon indica que a última (ou mais recente) é de 1992. O autor, Boris Kordemsky, faleceu em 1999. A edição americana foi preparada por (quem mais?) Martin Gardner.

O aniversário do encontro Apollo-Soyuz me trouxe a obra de Kordemsky à lembrança ao me fazer pensar em como o auge da ciência soviética coincidiu com o sucesso do livro de enigmas matemáticos. As primeiras bombas H soviéticas foram testadas entre 1953 e 1955; Know-how Matemático saiu em 1956; Gagarin viu a “Terra azul” em 1961.

Claro que evocar uma relação de causa e efeito aqui seria exagero — e, de qualquer forma, exigiria muito mais dados — mas a hipótese de que o interesse popular em matemática e a percepção do avanço científico da nação estejam, de alguma forma, ligados é certamente plausível.

E no Brasil? Uma busca pela palavra-chave “matemática” em duas grandes livrarias online traz algumas obras recreativas (traduzidas) publicadas pela Jorge Zahar, seguidas por um grande número de livros didáticos. O Homem Que Calculava, de Malba Tahan, ainda está em catálogo, o que é uma fonte de alento.

Tempos atrás, encontrei numa banca de jornais Os Enigmas de Canterbury,  tradução para o português de Portugal (e tinha gente que achava que a reforma ortográfica ia fazer diferença…), impressa da Espanha, de uma obra inglesa de 1907. Prometia ser parte de uma “coleção desafios matemáticos”, mas não notei outros volumes à venda.

Para animar o fim de semana, deixo aqui um enigma “vintage” de Kordemsky:

O clinte disse ao caixa: “Peguei dois pacotes de banha, a 9 centavos; duas barras de sabão a 27 centavos; e três sacos de açúcar e seis doces, mas não me lembro do preço do açúcar e dos doces”.

Responde o caixa: “Sua conta toda fica 2,92.”

O cliente retruca: “Você está enganado.”

O caixa refaz as contas e percebe o erro. Como o cliente adivinhou que a conta estava errada?