Por que o avião voa?

Estadão

06 Março 2010 | 09h20

Eu e minha mulher vamos pegar um voo em breve e, na tentativa de tranquilizá-la quanto à segurança das viagens de avião, me meti a tentar explicar o que, afinal, mantém as máquinas mais pesadas que o ar lá no céu.

O problema é que lá pelo meio da conversa me lembrei de uma polêmica que rolou há alguns anos na seção de cartas de uma revista internacional —  Scientific American ou New Scientist, não me lembro direito — sobre a “verdadeira causa” da sustentação dos aviões, com defensores do Princípio de Bernoulli e das Leis de Newton digladiando-se furiosamente.

A explicação mais comum de se encontrar usa uma versão simplificada da Lei da Dinâmica dos Fluidos de Daniel Bernoulli. Essa versão reduz o enunciado mais sutil da lei à frase: “Quanto maior a velocidade de um fluido, menos pressão ele exerce”.

(Se o seu chuveiro é dos que tem cortina plástica, você já deve ter notado que, quando a água sai num jato bem rápido, logo que a ducha é ligada, o plástico é “sugado” para dentro: o repentino aumento na velocidade do ar causado pelo jato de água reduz a pressão no interior do box.)

A explicação  sobre aviões geralmente diz que a asa do avião tem um formato tal que faz com que o ar tenha de viajar um caminho maior ao passar por cima dela do que ao percorrê-la por baixo, e como ele deve levar o mesmo tempo para cumprir os dois trajetos, a velocidade na rota superior tem de ser maior; por causa disso, a pressão em cima da asa cai, e o avião sente uma força empurrando-o para o alto.

O problema com essa versão é que ela depende do argumento de que o  ar leva “tempos iguais” para percorrer as duas superfícies da asa, o que não é verdade. Ela também não explica como um avião acrobático é capaz de voar de cabeça para baixo. Existe um artigo clássico denunciando o uso do Princípio de Bernoulli como explicação para o voo dos aviões, que pode ser lido

.

Já a versão com base nas Leis de Newton é mais direta: toda ação produz uma reação; a asa do avião empurra o ar para baixo; o ar reage empurrando o avião para cima. Nesse caso, mais crucial que o formato da asa é o “ângulo de ataque” com que ela corta o ar adiante.

Isso não significa, no entanto, que a Lei da Dinâmica dos Fluidos de Bernoulli não tenha absolutamente nada a ver com o voo dos aviões! A Sociedade Brasileira de Física também traduziu um

que explica que embora a versão simplificada que fala em “tempos iguais” para o trânsito do ar pelas duas superfícies da asa seja inadequada, Bernoulli ainda é essencial para o design de máquinas voadoras e, sim, o ar que passa por cima da asa viaja mais depressa, exercendo uma pressão menor — mas não porque precisa estar na outra ponta “ao mesmo tempo” que o ar que foi por baixo.