Por que o carnaval é no carnaval?

Estadão

09 Fevereiro 2010 | 22h07

Feriados móveis são uma dor de cabeça. Acho que foi em 2008, quando o carnaval caiu logo na primeira semana de fevereiro, que um folião (“carnavalesco”?) carioca, exasperado com o pouco apelo turístico-comercial de uma data tão próxima ao início do ano, sugeriu que a festa fosse empurrada mais para a frente. O que causou uma reação ainda mais exasperada da hierarquia católica.

Mas, enfim, o que a Igreja Católica tem a ver com o carnaval, e por que a festa cai num dia diferente a cada ano? Ora, muito obrigado por perguntar.

A resposta curta é que a terça-feira de carnaval sempre cai 47 dias antes do domingo da Páscoa católica. Ou, se você preferir números redondos, o sábado de carnaval é sempre 50 dias antes do domingo dos ovinhos de chocolate. O que traz, claro uma nova questão: por que a Páscoa muda todo ano?

Ponha a culpa nos bispos reunidos no Primeiro Concílio de Niceia, realizado em 325. Eles determinaram que a Páscoa ocorreria sempre (1) num domingo (2) depois da primeira lua cheia que (3) se seguisse ao equinócio de primavera.

(Antes de ser o nome da ex-mulher de um ex-prefeito da capital paulista, Niceia era uma cidade da região de Bitínia, hoje na Turquia; convocado pelo imperador romano Constantino, o concílio tinha por objetivo resolver uma disputa teológica candente da época, sobre a natureza de Cristo. E aproveitou para fixar a fórmula da Páscoa)

“Equinócio” se refere à data em que o Sol se posiciona exatamente sobre o equador. Como o eixo do planeta tem uma inclinação de pouco mais de 23º, na maior parte do tempo o Sol aparece deslocado para o norte ou para o sul, dependendo da estação. Ele só fica diretamente sobre a linha do equador duas vezes ao ano: nos equinócios de primavera e de outono, que marcam o início dessas duas estações.

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As posições da Terra em sua órbita, com os solstícios aparecendo à esquerda e direita. Tau’olonga/Wikimedia Commons

O curioso é que os equinócios se invertem quando se muda de hemisfério: o de primavera no norte é o de outono no sul, e vice-versa. Se a definição fosse levada ao pé da letra, portanto, aqui no Brasil a Páscoa deveria cair em outubro ou novembro e o carnaval, em agosto ou setembro. Mas celebramos junto com os colegas do norte.

(A luta anti-imperialista poderia justificar, então, um segundo carnaval no segundo semestre. Tudo bem que o império no caso é o romano, que já não existe há 500 anos, mas e daí? Ao chope escuro, companheirada!)

O que complica realmente a conta é a questão da lua cheia. Como a Páscoa cristã tem uma ligação histórica com a Páscoa judaica, e as festas judaicas seguem um calendário de forte inspiração lunar, suponho que a interferência seria inevitável. O problema, porém, é que as fases da lua se repetem em ciclos que têm uma duração média de 29 dias, 12 horas e 44 minutos.

O conceito de “mês” do calendário civil é uma tentativa de acomodar esses ciclos lunares, mas o encaixe está longe de ser perfeito: em 365 dias, há umas 12,4 luas: por conta disso, calendários com forte componente lunar muitas vezes adotam um mês extra em anos bissextos (e você achando que 29 de fevereiro já era complicação suficiente, aposto).

Bom, enfim: existem 35 datas possíveis para o domingo da Páscoa católica (não digo cristã porque algumas igrejas ortodoxas usam o calendário juliano, o que… olha, isso é outra história). Todas caem entre 22 de março e 25 de abril. O carnaval é afetado da mesma forma: a terça-feira gorda pode cair entre 3 de fevereiro e 9 de março, se o meu calendário de parede estiver certo — possíveis correções para a seção de comentários, por favor!