Qual a chance de…?

Estadão

12 Abril 2010 | 08h42

Aqui perto de casa tem uma lotérica com uma faixa pendurada na frente, dizendo que se trata de um estabelecimento de boa sorte — “pé-quente”, creio, é o termo usado — porque foi de lá que saiu um prêmio recente de Mega-Sena acumulada.

Isto é, obviamente, uma bobagem. A chance de se acertar os seis números da Mega-Sena é de pouco menos de 1 em 50 milhões, e o lugar onde você faz a aposta é irrelevante — desde que você a faça, é claro, numa lotérica legalmente constituída.

O ser humano, no entanto, é um animal que lida muito mal com o acaso. Não só temos uma tendência exasperante de enxergar padrões em toda parte, como nossa capacidade intuitiva e inata de avaliar chances não merece lá muita confiança.

A tendência humana de detectar padrões onde só há confusão — para usar uma expressão da moda, de enxergar sinal onde na verdade só existe ruído — já foi explicada como uma vantagem de sobrevivência para nossos ancestrais distantes: se aquela sombra parece ser a de um tigre,  melhor passar longe! No entanto, assim como a magnífica capacidade do corpo humano de estocar calorias sob a forma de gordura, esta parece ser uma vantagem que, no geral, sobreviveu à própria utilidade.


O reconhecimento de falsos padrões gera convicções fortes. O psicólogo Thomas Gilovich realizou há alguns anos um estudo, hoje clássico, sobre a hipótese da “mão quente” dos jogadores de basquete — basicamente, que um jogador que acerta uma cesta fica “quente” e tem mais chances que o normal de acertar o próximo arremesso, e o que erra fica “frio” e, portanto, suas chances de marcar pontos num arremesso futuro caem.

Analisando as estatísticas de uma equipe durante a temporada 1980-1981 da NBA, no entanto, Gilovich e colegas não encontraram efeito nenhum.  Os dados, porém, não convenceram os entusiastas, que insistiram com os pesquisadores que a “mão quente” é real, e a culpa é das estatísticas que não mostram isso!

Ciência, alguém já disse, não é a atividade de encontrar ordem no mundo, e sim a de buscar, em meio a todas as possíveis “ordens” que a mente humana acredita perceber, as que realmente estão lá. A ideia da lotérica “pé-quente” é apenas mais um falso padrão que tenta se impor, no caso, por óbvias razões comerciais.

A interpretação equivocada do acaso é uma fonte inesgotável de padrões espúrios. Coincidências, de fato, são muito mais comuns do que estamos dispostos a admitir.

Um exemplo clássico é o do sonho premonitório: você sonha com “x” e, no dia seguinte, “x” acontece! Qual a chance disso ter acontecido por puro acaso? Uma em um milhão? Que seja. Supondo que o Brasil tenha 200 milhões de habitantes, isso quer dizer que cerca de 200 pessoas, só neste País, têm sonhos premonitórios a cada noite. E por pura coincidência.

Este é um salto conceitual — notar que o que é excepcional para o indivíduo pode muito bem ser até que razoavelmente ordinário na população — que envolve abrir mão de uma generosa fatia de egocentrismo. Talvez por isso seja tão difícil.