Qual o seu signo?

Estadão

25 Outubro 2010 | 09h01

Sempre que me perguntam isso, respondo com um pequeno desafio: “Qual você acha que é?” A maioria das pessoas não acerta logo na primeira, e quase todo mundo desiste de tentar se não obtém sucesso até o terceiro palpite, quando a chance de um acerto por pura sorte chega a 10%. Não faz diferença se quem pergunta é alguém que me conhece já há algum tempo, ou uma pessoa a quem acabo de ser apresentado.

Curiosamente, observo também um fenômeno oposto: quando tem bolo de aniversário na redação do Estado, não é raro alguém comentar: “Ah, Fulano é geminiano (ou escorpiano, ou ariano, ou qualquer que seja o signo do mês). Tinha de ser! Eu sabia!”

Temos um aparente paradoxo: num momento o sistema parece incapaz de associar corretamente o signo à pessoa; no outro, permite associações diretas e perfeitamente corretas. Como assim? A resposta — ainda mais óbvia que o signo do aniversariante da vez — é que no primeiro caso o que se esperava da astrologia era uma previsão; no segundo, o que se tem é meramente uma constatação a posteriori.

O que ocorre no episódio do aniversário é um fenômeno psicológico que nada tem a ver com os astros: dado o cardápio de características associadas ao signo e o fato de que a pessoa que faz anos pertence a esse signo, não é difícil focalizar nas concordâncias, ignorar as divergências e chegar a uma conclusão tão evidente — e tão válida — quanto uma previsão detalhada da manchete dos jornais de ontem.

Há tantas coisas erradas com a ideia de astrologia do ponto de vista estritamente físico — o fato de que as estrelas não estão onde as cartas astrológicas dizem; o fato de que não existe uma força natural capaz de transmitir as influências dos astros necessárias para tornar a astrologia válida; etc, etc — que esta postagem ficaria muito acima da média de 500 palavras que tento manter se fosse mencionar todas.

A interpretação mais caridosa que consigo oferecer para contornar essas dificuldades é a de que o uso de estrelas e planetas na astrologia é meramente simbólico. Que a astrologia lida na verdade com momentos, e que o céu estilizado usado nas cartas é, na verdade, um relógio, onde “estrelas” e “planetas” representam números e ponteiros. Mesmo essa versão simbólica tem problemas, já que a atribuição de significados aos signos e planetas ainda precisa ser justificada, mas que seja: o relógio astrológico funciona?

A resposta é não. Os dois gráficos abaixo foram retirados do website Astrology & Science:

Este representa os resultados cumulativos de uma série de testes em que se pediu a astrólogos que associassem cartas astrais ao perfil psicológico, biografia ou descrição das pessoas a quem as cartas pertenciam. A taxa de sucesso não foi melhor que a esperada por pura sorte — igual à que seria obtida se, digamos, perfis e cartas fossem jogados para o alto e associados com base no ponto do chão em que caíssem.

Este outro gráfico é o meu favorito: indica a capacidade dos astrólogos de concordar na interpretação de uma carta astral. Entrega-se uma mesma carta a alguns astrólogos e pede-se que descrevam a pessoa representada ali. De novo, o resultado é o esperado por pura sorte. Seria como se você levasse um mesmo exame de sangue a vários médicos e metade deles dissesse que seu colesterol está alto e a outra metade, que está baixo.

No entanto, astrólogos têm milhares (ou milhões) de clientes satisfeitos dispostos a jurar que a técnica funciona. Um estudo revelador a respeito disso foi descrito pelo britânico Geoffrey Dean em 1987.

Um grupo de entusiastas da astrologia recebeu interpretações de suas cartas astrais, sendo que a metade deles foi dada a interpretação correta dos aspectos planetários e, à outra metade, a interpretação inversa (por exemplo, um aspecto que normalmente indicaria cautela foi traduzido como impetuosidade). Os voluntários que receberam as cartas reversas mostraram um grau de identificação com o resultado tão grande quanto os que receberam cartas corretas.

Trata-se de um fenômeno feito em partes iguais de linguagem e psicologia. A parte “linguagem” entra no fato de que qualquer defeito pode ser descrito como qualidade e vice-versa (eu sou persistente, você é teimoso, ele é uma mula) e de que afirmações vagas podem soar específicas (“você tem um potencial que ainda não foi capaz de explorar como gostaria”, por exemplo, parece dizer algo muito importante e pessoal, mas na verdade se aplica a qualquer um).

A parte psicologia envolve seletividade –é mais fácil lembrar e ficar impressionado com os acertos do que contar os erros –, o desejo de acreditar, o desejo de participar (há pessoas que realmente curtem “representar o papel” do signo) e, graças aos usos da linguagem descritos acima, a facilidadede de projetar-se no que é dito.

Não tenho a esperança de que esta postagem vá fazer com que algum adepto da astrologia mude de ideia, mas talvez sirva de alerta para alguém que esteja começando a se impressionar com a coisa e não esteja obtendo acesso a material crítico (que é lamentavelmente escasso, em comparação à propaganda favorável).

E paro por aqui, porque já estourei bastante tais as 500 palavras…