Quando confessar ignorância é uma vantagem

Estadão

27 Agosto 2010 | 07h59

Ontem, publiquei uma entrevista com o líder de um grupo de pesquisas que buscou determinar em que condições uma decisão coletiva pode, realmente, ser melhor do que uma decisão autocrática, tomada pelo membro mais capaz, competente ou especializado do grupo.

(O texto pode ser lido aqui, na íntegra.)

A conclusão foi a de que uma decisão coletiva pode ser melhor que uma decisão individual especializada, desde que se cumpram dois critérios: (a) o nível de competência dos participantes estar razoavelmente equilibrado; e (b) os participantes serem sinceros ao descrever as dúvidas que têm sobre as próprias opiniões.

Quando comentei com alguns colegas que estava trabalhando nessa história, obtive uma certa reação de surpresa. A pauta científica da semana tinha, afinal, tinha coisas mais sensacionais, como os novos planetas do Kepler , a simulação dos buracos negros primordiais e (confesso que esta realmente me deixou tentado) os efeitos da luz solar na formação de asteroides duplos.

Em comparação, as conclusões da equipe de Bahador Bahrami pareciam soar “óbvias”. “Ciência confirma o bom-senso”, brincou um amigo, sugerindo um título para o texto que eu iria produzir.

Então: por que diabos peguei essa pauta, especificamente?

Imagino que por três motivos. O primeiro é que realmente gosto de pesquisas que trazem uma abordagem mais experimental e quantitativa ao estudo das interações humanas. Sou um consumidor ávido de resultados sobre o Dilema do Prisioneiro e de Jogos de Ultimato, por exemplo.

O segundo motivo é que o resultado pode até ser “óbvio” e de “bom-senso”, mas não reflete a prática corrente. De reuniões corporativas às próximas eleições, passando pelas famigeradas discussões de relação, em quantas oportunidades um esforço real é feito para equalizar competências e explicitar incertezas?

O terceiro, talvez mais importante, é formado pelas duas últimas palavras do parágrafo acima: explicitar incertezas. De acordo com o resultado de Bahrami, a boa decisão só acontece quando os debatedores estão não só  dispostos a reconhecer que têm dúvidas quanto às posições que defendem, mas também comunicam claramente um ao outro o grau dessa dúvida.

A ideia de que ignorância e incerteza podem existir em graus, e de esses graus podem (e devem) ser efetivamente reconhecidos e comunicados por meio do diálogo — se o objetivo do diálogo é chegar a uma decisão correta — até soa óbvia uma vez articulada, mas na verdade é muito sutil e sofisticada. Estou, digamos, 90% certo disso.