Quantas pessoas virtuais trabalham para você?

Estadão

25 Agosto 2010 | 05h11

Tecnologia gera desemprego, diz o senso comum. Tecnologia liberta o ser humano do trabalho repetitivo e alienante para que possa se dedicar a coisas mais elevadas,  responderam, ao longo da história, figuras visionárias como — no século passado — Monteiro Lobato e Isaac Asimov.

Reconhecendo que a situação dificilmente chega a ser assim tão bem definida e na verdade é muito dinâmica, com os “libertados” de hoje devendo muito ao sofrimento bem real dos “desempregados” de uma ou duas gerações atrás, seria interessante, pelo menos, tentar quantificar  quantos funcionários cada um de nós precisaria ter para manter o padrão de vida que a civilização tecnológica atual nos dá.

Digamos que, em vez de carros, houvesse liteiras ou jinriquixás; que, em vez de lâmpadas, precisássemos de mordomos (em nossas casas) e funcionários públicos (nas ruas) para acender e apagar velas (e fabricantes de velas e de fósforos para suprir a demanda); que esta postagem, em vez de ser transmitida pela internet, tivesse de ser ditada a um escriba, copiada à mão centenas ou milhares de vezes e enviada, por estafeta, a cada um de seus leitores.

O empurrador do jinriquixá ficou desempregado ou foi libertado?

O empurrador do jinriquixá ficou desempregado ou foi libertado?

Um jeito grosseiro, mas curioso, de estimar essa “população fantasma” de escravos, servos e funcionários substituídos pela tecnologia é fazendo o cálculo de “pessoa virtual”.

Encontrei o conceito de “pessoa virtual” num artigo escrito por um engenheiro americano, Robert P. Burruss, publicado na edição mais recente da revista Free Inquiry. Burruss parte da constatação de que o consumo energético médio do metabolismo humano é de 2.000 calorias alimentares ao dia, o que equivale (arrendondando) a 100 W.  Então, pronto: cada 100 W de energia potência que você consome representa uma pessoa virtual, ou VP, “virtual person”.

Nos Estados Unidos, de acordo com Burruss, há 120 VPs para cada habitante real.  No restante do mundo desenvolvido — Europa e Japão — a taxa cai para 60 VPs por ser humano de carne e osso. O resto do mundo tem acesso, em média, a 13 VPs per capita.

E no Brasil? De acordo com o IBGE, o consumo per capita de energia, em 2007, foi de 51,9 bilhões de joules.  Convertendo joules/ano em watts, isso dá 1.645, ou 16 VPs por habitante.

Dezesseis empregados virtuais para cada brasileiro!

Dadas as desigualdades que permanecem no País, é bem provável que esse número varie um bocado entre as regiões, e até dentro de uma mesma cidade.