Quanto espaço há no seu tempo?

Estadão

22 Julho 2010 | 08h48

Depois de muito resistir — meu senso prático não via razão para gastar nem 99 centavos de dólar na coisa — acabei comprando e baixando para o celular um aplicativo chamado Spacetime, que converte quantidades de espaço em tempo, e vice-versa.

A ideia da conversão pode soar estranha, a princípio, mas faz sentido: de acordo com a relatividade geral, o tempo seria apenas mais uma dimensão, uma coordenada extra no mapa do universo, que deixa de contemplar apenas o espaço — altura, largura, profundidade — e o passa a dar conta do espaçotempo.

Não é difícil encontrar na internet diagramas espaçotempo, gráficos onde um eixo representa a combinação das coordenadas espaciais normais e o outro, o tempo.

A escala é dada pela velocidade da luz no vácuo — 300.000 km/s —  de forma que a cada 300.000 km no eixo do espaço corresponde 1 segundo no do tempo.

Isso, a velocidade da luz, é o fator de conversão usado pelo aplicativo Spacetime. Minha resistência em adquirir o aplicativo estava, primeiro, na inutilidade básica da coisa e, segundo, na constatação de que ele não passava e uma calculadora maquiada — o que o programinha faz é apenas multiplicar ou dividir por 300.000, dependendo do caso.

O que me ganhou foi o fato de o aplicativo trazer também um sistema de cálculo de datas — basicamente, um meio de ver quanto “espaço” se passou desde o seu nascimento ou casamento. E foi exatamente o que fiz.

Descubro então que nasci a 374 trilhões de quilômetros atrás. Essa é a distância que um raio de luz — digamos, o reflexo do olhar crítico do obstetra que me viu pela primeira vez — viajou desde então.

Corresponde a um milhão de vezes a distância entre a Terra e o limite interior do cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter. Nesse mesmo tempo, o mais longe a que já cheguei foi até a Antártida e a Londres. Um pulinho na esquina, em comparação.

Meu casamento foi a 98 trilhões de quilômetros atrás. Partículas de luz do flash da máquina que fez a imagem sorridente mantida por minha sogra num porta-retratos da sala de estar já passaram bem além de Proxima Centauri, a estrela que fica mais perto do Sol.

Se a conversão de datas em espaço oferece uma perspectiva nova, quase cósmica, a conversão de distâncias em tempo chega a ser meio tragicômica. O espaço que separa minha casa do prédio do Estadão — cerca de 40 km — corresponde a mísero 0,13 milissegundo. E pensar que levo de 40 minutos a uma hora e meia para chegar ao trabalho, dependendo do trânsito.

Já minha altura equivale a 5,6 nanossegundos. Eis aí um fato que prefiro não comentar.