Risco de vida

Estadão

11 Maio 2010 | 10h57

As escolhas de cobertura da mídia internacional frequentemente são acusadas de distorcer a percepção de risco do público — mantendo, por exemplo, pessoas que insistem em não usar o cinto de segurança ao dirigir mais  preocupadas com tsunamis e ataques terroristas do que com o trânsito. Ou, pensando mais em doenças exóticas como ébola do que em pressão alta.

Imagino que no Brasil possa haver uma distorção semelhante no que diz respeito a  meios de transporte — quedas de avião, afinal, recebem uma atenção muito mais intensa que atropelamentos.

Como ontem tive de mergulhar no DATASUS (sistema do Ministério da Saúde que reúne dados sobre, claro, saúde) para pesquisar um pouco a respeito da dengue, aproveitei para dar uma olhada também nas chamadas “causas externas”, categoria que inclui desde assassinato a morte acidental por cair da cama (197 óbitos em 2008, ano dos dados mais recentes disponíveis).

Resolvi então montar uma comparação entre mortes de pedestres e mortes de passageiros de avião. As contas foram feitas às pressas e os dados provavelmente escondem sutilezas que não fui capaz de penetrar (isto é um blog, não um “paper”!), mas o resultado que obtive foi de que em 2008, 8.885 pedestres morreram no, digamos, exercício do pedestrianismo, incluindo 37 em “colisões com veículos a pedal” e 161 em “colisão com veículo ferroviário”.

Supondo que todo brasileiro seja pedestre — já que todo mundo precisa, imagino, ir até a esquina de vez em quando — o risco de vida envolvido na decisão de andar a pé é de 1 em 21 mil.

Já em acidentes “de aeronave” e “de transporte aéreo” o total de vítimas no ano foi de 73, incluindo aí aeronaves não motorizadas. Em 2008 o Brasil transportou cerca de 56 milhões de passageiros por meio aéreo. O risco fica em algo como 1 em 700 mil.

A conclusão parece ser que vale mais a pena ter cuidado ao atravessar a rua do que medo de voar.  Note que mesmo se o número de mortes causadas por acidentes aéreos fosse dez vezes maior — 730, o equivalente a três Airbus A330 — ainda assim o risco para pedestres ainda seria o triplo do que é para passageiros de avião.

Curiosidade (1): entre as causas de morte menos prováveis de 2008 (com um óbito creditado a cada) estão “colisão entre duas pessoas”, “mordedura de rato”, “contato com centopeia venenosa”  e “exposição a radiação ionizante”.

Curiosidade (2): pessoalmente, considero a expressão “risco de morte” uma abominação aos olhos do Senhor e recuso-me a usá-la, mesmo sob tortura. Como assalto do modismo à eufonia e às melhores tradições da língua, só perde, talvez, para “estadunidense”. E quem acha que “risco de vida” é errado que vá, por favor, reclamar primeiro com

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