Será que o seu voto está escrito nos genes?

Estadão

28 Outubro 2010 | 08h55

Seus genes têm algo a dizer sobre suas preferências políticas? Uma série de estudos realizada ao longo dos últimos cinco anos — a partir do clássico

, que analisou pares de gêmeos — sugere que sim.

Os autores do mais recente, publicado no Journal of Politics da Universidade de Cambridge, acreditam ter identificado, pela primeira vez, uma interação específica, entre gene e ambiente, que leva as pessoas a serem mais liberais.

(“Liberal”, aqui, é usado no contexto do espectro de opiniões sociais que vai de liberal a conservador — digamos, de totalmente a  favor de que casais gays possam se casar até mesmo na igreja a totalmente contra qualquer sugestão de reconhecimento de uniões civis homossexuais — e não no sentido mais estrito de liberalismo econômico)

Os pesquisadores, da Universidade da Califórnia em San Diego e Harvard, dizem ter encontrado uma forte correlação entre um receptor de dopamina do cérebro, um determinado tipo de experiência de vida e o liberalismo político. O receptor, sem a experiência, não correlaciona com liberalismo; a experiência, sem o receptor, também não.

Esmiuçando: dopamina é um neurotransmissor, uma molécula que atua no cérebro. Sabe-se que ela afeta, entre outras coisas, a experiência de prazer e dor.  O receptor é a molécula do neurônio que é sensível à presença do neurotransmissor.

No estudo, a correlação foi encontrada entre a presença — determinada geneticamente — de uma versão do receptor de dopamina, o DRD4-7R, o número de amigos que a pessoa teve na adolescência e a opinião política que desenvolveu na vida adulta.

Das 2.000 pessoas que tiveram dados analisados pelos autores do trabalho, as com o DRD4-7R e muitos amigos na juventude mostraram-se mais liberais, na idade adulta, que as com DRD4-7R e com poucos amigos; e que as sem DRD4-7R  mas com muitos amigos.

Estudos anteriores haviam indicado que portadores do DRD4-7R são pessoas com mais tendência a buscar e apreciar novas experiências. Os autores sugerem que essa abertura,  associada a um amplo círculo de amizades que expõe o indivíduo a diferentes estilos de vida e pontos de vista, leva a uma visão mais liberal da sociedade.

Há um velho mantra da estatística que diz que “correlação não é causação”: o fato de duas coisas acontecerem juntas não implica necessariamente que uma é causa da outra. E este ainda é um primeiro estudo. É preciso ver se a correlação se mantém em trabalhos posteriores.

Mas suspeito que para muita gente a questão mais importante nem é saber se essa correlação se sustenta, e sim se faz sentido, ou se vale a pena, buscar esse tipo de correlação, para começo de conversa.

Os pesquisadores que seguem essa linha de investigação não se veem empreendendo uma tentativa de impor o “determinismo genético” à política, mas sim buscando moderar o “determinismo ambiental” reinante — a ideia de que suas opiniões políticas são ditadas pela sua classe social, pela igreja ou torcida organizada que você frequenta.

No fim, cada um de nós é um ponto de vista, construído por genes e experiências. Se uns ou outros fossem diferentes, seríamos outras pessoas.