Solução do enigma e (falta de) lógica no debate político

Estadão

26 Julho 2010 | 08h59

Como a maior parte dos comentaristas notou, a solução para o enigma da postagem de sexta-feira é a constatação de que a soma total, em centavos, do valor da compra teria de ser um múltiplo de três — o que 2,92, ou 292 centavos, não é.

E agora, mudando radicalmente (ou talvez nem tanto) de assunto, queria dar um pequeno pitaco a respeito do tipo de discurso a que estamos sendo submetidos neste período pré-eleitoral.

Este é, essencialmente, um blog de ciência, que às vezes entra um pouco na filosofia. Sendo a lógica uma ferramenta essencial a ambos os campos, tenho especial apreço por ela e, embora geralmente consiga fazer ouvidos moucos às agressões a que a pobre dama é submetida no dia-a-dia, o volume do soi-disant “debate político” está tão alto que não é mais possível ignorá-lo, ou deixar de sentir algum incômodo com sua baixíssima qualidade argumentativa.

(Não estou entrando no mérito do conteúdo de alegações e propostas; trato apenas da forma lamentável como vêm sendo apresentadas e/ou contestadas)

Imagino que uma lista completa dos atos de desonestidade intelectual cometidos por políticos (e por seus seguidores, apoiadores, correligionários, etc) encheria um livro muito divertido, mas vou me limitar a dois que, ao menos em minha opinião, clamam aos céus por identificação e denúncia.

O primeiro é tão manjado que tem até um nome em latim, tu quoque, que quer dizer “você também”. É a manobra de, em vez de responder a uma acusação, devolvê-la. Crianças fazem muito isso: “Mãe, Pedrinho pegou uma fatia a mais de bolo!”, diz Gabrielzinho.  A que Pedrinho responde: “Mas o Gabrielzinho também!”

Perceba que em nenhum momento Pedrinho, o acusado, nega ter exagerado no bolo. No contexto de discutir a culpa ou inocência de Pedrinho, o que Gabrielzinho fez ou deixou de fazer é estritamente irrelevante. A questão da culpa de Gabrielzinho pode vir a ser importante mais tarde (quando a mãe decidir a punição, se houver) mas a frase “Pedrinho pegou uma fatia a mais de bolo” não depende de nada que Gabrielzinho tenha feito, ou deixado de fazer, para ser verdadeira ou falsa.

O segundo truque é o cui bono (“quem se beneficia”). Trata-se de uma questão importante  e relevante em várias situações — numa investigação de homicídio, por exemplo — mas, como ferramenta de prestidigitação retórica, cui bono é a técnica de, em vez de discutir a questão em si ou sua relevância intrínseca, começar a perguntar “a quem interessa” o fato de a questão ter sido levantada.

O cui bono vem sendo muito usado no debate sobre meio ambiente. Você provavelmente já leu ou ouviu algo nesta linha: A quem interessa a pressão de ONGs internacionais pelo corte de emissões de CO2?

Assim como o comportamento supostamente hipócrita de Gabrielzinho no caso da fatia de bolo, esta é uma pergunta cuja resposta pode até ser interessante em seu próprio contexto, mas que é absolutamente irrelevante frente às questões de fundo: no caso, o nexo científico entre emissões de CO2 e aquecimento global, e  as consequências de longo prazo desse aquecimento.

Para finalizar: tanto tu quoque quanto cui bono costumam ser introduzidos no discurso em um tom de indignação, ironia ou ambos, o que aumenta consideravelmente seu poder de intimidação moral e intelectual. Mas não se engane: quem os usa provavelmente está morrendo de medo de ver o debate avançar e louco para mudar de assunto.