Tempo e temperatura

Estadão

29 Novembro 2009 | 08h23

Riccardo pergunta sobre a temperatura por aqui. Ela anda oscilando em torno do zero grau – a previsão para hoje é de -1°C a -1,5°C. Mas a sensação térmica é muito pior, principalmente em dias de vento forte, como hoje. Com o vento previsto para esse domingo – de cerca de 15 nós (entre 20 km/h e 30 km/h) – a sensação térmica pode cair a até -16° C.

(Dentro de Ferraz, a temperatura é constante, em torno de 20 e poucos graus)

Essas médias, no entanto, não refletem a variabilidade da temperatura e da sensação térmica no continente gelado. Aqui, o tempo pode mudar muito e muito depressa.

Ontem, durante a pescaria, depois de me enfiar num mustang (macacão especial para expedições de barco, que tem flutuabilidade e isolamento térmico, dobrando como agasalho e salvavidas) emprestado pelo chefe de Ferraz, senti calor a ponto de suar – fazendo o bloqueador solar que havia passado escorrer sobre meus olhos, o que arde pra burro – e um frio congelante que me fez desejar do fundo do coração um par de luvas mais grosso, tudo num intervalo de menos de duas horas.

Um dos principais fatores envolvidos na mudança do tempo é, exatamente, o vento. Um dos pioneiros da exploração antártica, Apsley Cherry-Garrard, que participou de uma expedição ao polo sul em 1910, escreveu em suas memórias da viagem que muitas vezes ele e seus companheiros tinham de se inclinar tanto para a frente para caminhar contra o vento que, quando parava repentinamente de soprar, eles caíam todos de cara no gelo.

A Antártida tem os chamados ventos catabáticos, gerados quando massas de ar frio se acumulam nos pontos mais elevados do relevo até que, literalmente, ficam pesadas demais e começam a rolar ladeira abaixo. São verdadeiras avalanches de ar denso.

Por tudo isso, velocidade do vento é, junto com visibilidade, um dos critérios usados pelo chefe da EACF para decidir se uma expedição ao exterior da estação pode ou não ser realizada num dado momento. As mudanças de visibilidade são surpreendentes: normalmente, aqui de onde estou sentado, na sala de estar da estação, é possível enxergar claramente o outro lado da Baía do Almirantado. Hoje, está tudo tomado pela neblina cinzenta, como se vê nas imagens abaixo, a primeira feita ontem e a segunda, hoje, com um intervalo que não chega a 30 horas:

diabom2

diafechado

Mas o tempo em Ferraz deve esquentar um pouco mais à tarde, com a rodada do campeonato brasileiro. Aqui temos muita gente interessada nos jogos, de corintianos a flamenguistas: boa parte do pessoal da Marinha na estação é do Rio de Janeiro ou torce para times cariocas. Ainda não encontrei sãopaulinos por aqui, mas há pelo menos uma corintiana, argentina de nascimento. Detalhes da repercussão da rodada no posto brasileiro do gelo seguem à tarde.

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