Vai uma energia positiva aí?

Estadão

03 Maio 2010 | 08h44

Poucas palavras são tão abusadas quanto “energia”. Cantores pop mandam e pedem “energia positiva” da plateia; astrólogos gostariam de nos fazer acreditar que determinadas configurações planetárias enviam “energias” deste ou daquele tipo para pessoas nascidas em determinadas datas; e há ainda quem diga que cores, pedras ou sons podem ajudar a “harmonizar as energias”.

Veja bem, nada tenho contra sentidos figurados. Como escritor, estou perfeitamente familiarizado, e sou um grande entusiasta, da rica prática literária e retórica de utilizar as palavras conotativamente.

No caso de “energia”, porém, parece haver uma tentação constante de tirar a palavra de seu contexto técnico-científico — tomá-la como metáfora, portanto — enquanto se finge ou se imagina que a autoridade e as propriedades derivadas desse contexto se transferem, intactas, para o uso figurado.

Mencionar a equivalência física entre matéria e energia pra defender, digamos, o poder do pensamento positivo  é um caso clássico do tipo de confusão a que me refiro e que, muitas vezes, chega a soar como má-fé.

Tecnicamente, energia é a capacidade de realizar trabalho. “Trabalho”, nesse contexto, é uma transformação física — uma mudança na posição, velocidade, tamanho, formato ou temperatura de alguma coisa.

Energia pode vir em vários sabores: química, mecânica, elástica, gravitacional (mas certamente não “psíquica” ou “espiritual”).

Às vezes pode até fazer sentido tratá-la como negativa ou positiva — por exemplo, se você der o  sinal de menos (-) à energia gasta numa parte de um movimento cíclico e o de mais (+) à outra parte, a energia total do ciclo fica sendo zero, o que talvez seja conveniente para facilitar os cálculos. Mas o caso não tem nada  a ver com  bom ou mau humor, pensamento positivo ou negativo, doença ou saúde.

Energia segue três leis. As duas principais dizem que ela não pode ser criada ou destruída, apenas transferida de um “sabor” para outro; e que, mesmo não podendo ser destruída, parte da energia usada numa transformação inevitavelmente torna-se inútil e não pode ser recuperada para realizar novos trabalhos. Essas duas leis às vezes  são resumidas nas frases Não dá para ganhar e Não dá para empatar. A terceira lei, que postula que mesmo partículas congeladas a zero absoluto ainda mantêm algum movimento, é traduzida como Não dá para sair do jogo.

E, por último mas não menos importante, a física do século 20 descobriu que é possível usar energia para produzir partículas de matéria, e destruir matéria para gerar energia. É a tal da equação E=mc2.

Agora, é obvio que um conceito assim é riquíssimo em termos de linguagem. Se energia é a capacidade de realizar transformações, então uma pessoa incapaz de mudar de vida, embora deseje fazê-lo, é alguém que, metaforicamente, “precisa de uma energia”; uma pessoa desanimada está com “saldo negativo de energia” (misturando a metáfora física à bancária) e alguém que se anima a tomar uma decisão importante depois de ler um livro inspirador “recebeu uma energia positiva” da leitura.

Dá até  para apelidar essa energia metafórica de (agora sim) “psíquica” ou “espiritual”, embora a manobra não me pareça de muito bom gosto. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Tentar acender lâmpadas com “energia psíquica” tem tanta lógica quanto pedir a um amigo que está “nas alturas” de alegria para que, na volta, traga uma amostra da camada de ozônio, 15 km acima do nível do mar.