Vendo só o que se quer ver

Estadão

18 Fevereiro 2010 | 08h38

O carro à frente vinha dando seta para a esquerda já há quase trinta segundos, e nem eu, nem o taxista que me conduzia, conseguíamos entender exatamente o que o motorista adiante queria fazer — a pista da esquerda estava praticamente livre, mudar de faixa não deveria demorar tanto.

E então o carro, ainda dando sinal de que entraria à esquerda, fez uma curva fechada para a direita, cortando a nossa frente. O taxista ficou branco, meteu a mão na buzina e, olhando para o lado para ver quem ia ao volante do automóvel destrambelhado, disse: “Mulher! Só podia ser. Mulher dirigindo é um perigo, viu…”

Suspendendo por um momento a natural indignação com a fala machista e politicamente incorreta, vamos pensar um pouco: o taxista é alguém que vive no trânsito. Passa pelo menos 12 horas ao dia atrás do volante, driblando motoboys, enfrentando pontos de alagamento, espremendo-se em geometrias impossíveis nas marginais.

Se ainda está vivo e não foi internado, é porque é razoavelmente bom no que faz — e conhece seu meio. Um taxista falando de trânsito é mais ou menos como um índio falando de floresta: alguém que tem experiência pessoal, intensa e em primeira mão do assunto. Podemos realmente desprezar o que ele diz?

Fui pagar o seguro do carro da família. Como só minha mulher dirige, consegui um preço bem melhor do que seria cobrado se eu também dirigisse. Por quê?

Estatísticas mostram que as mulheres são muito menos propensas a se acidentar e, no geral, matar, morrer e destruir o carro no processo. Números divulgados ano passado pelo Denatran, consolidando dados de 2004 a 2007, mostram que apenas 11% dos acidentes no Brasil envolvem motoristas do sexo feminino, embora 33% dos condutores em território nacional sejam mulheres.

Seguradoras, claro, estão no negócio de tentar vender seguros para o maior número possível de pessoas que não venha a precisar usá-los — do mesmo jeito que os bancos, como diz a anedota, estão no negócio de emprestar dinheiro para quem prova que não precisa de dinheiro emprestado. Conhecendo as estatísticas, as empresas sabem que estão correndo um risco muito maior ao segurar um carro conduzido por homem que por uma mulher.

Agora, afinal, quem está certo? O taxista, com sua sabedoria das ruas, sua intuição afinada por anos no front da guerra do trânsito, seu conhecimento primitivo e tradicional da vida como ela é, ou as seguradoras, com seus tecnocratas que só olham para números frios e tabelas insensíveis?

Ora, as seguradoras, é claro. O taxista é uma vítima do fenômeno psicológico conhecido como desvio, ou viés, de confirmação: a tendência humana de só prestar atenção nos casos que confirmam ou reforçam nossas crenças e preconceitos, e descontar a evidência em contrário. Como passageiro frequente de táxi, eu assisto a uma meia dúzia de barbeiragens ao dia, das quais apenas uma ou duas são, de fato, perpetradas por mulheres.

As estatísticas, quando bem aplicadas, são uma espécie de detergente que dissolve o desvio de confirmação, obrigando-nos a olhar para todos os dados, não apenas para os que nos servem pessoalmente. Esse é um dos motivos que fazem com que sejam um instrumento importante para a ciência.

E embora seja fácil condenar o desvio quando ele alimenta preconceitos que já caíram em desgraça no consenso social, como machismo e racismo, é um desafio importante tentar perceber quando ele nos afeta na tomada de decisões que são socialmente aceitas e até mesmo “politicamente corretas” — por exemplo, na escolha de um tratamento de saúde, de uma dieta da moda, na formação de uma opinião política ou na aceitação de vários tipos de crença.