Você tem medo de quê?

Estadão

18 Agosto 2010 | 08h46

No mês do aniversário da bomba atômica, da sexta-feira 13 e do Zé do Caixão na Bienal do Livro, não custa nada refletir um pouco sobre a relação entre medo e ciência. Não sobre os estudos científicos a respeito dessa emoção/sentimento, mas sobre os usos da ciência para produzir medo na arte — literatura, cinema, etc.

A maioria das pessoas hoje talvez pense em vampiros como o paralelo mais  óbvio — transmitido pelo sangue e por meio do contato físico entre uma pessoa infectada e outra saudável, o vampirismo parece pronto para ser reinterpretado como doença.

O fato de o vampiro provavelmente ter nascido como uma tentativa de explicar doenças como tuberculose ou sífilis antes que as moléstias fossem identificadas como tal, e antes que a humanidade encontrasse uma solução melhor na teoria dos germes, torna a situação curiosamente circular: um mito surgido para preencher uma lacuna no conhecimento científico é reinterpretado em termos científicos depois que a lacuna deixa de existir.

A obra fundamental dessa reinterpretação é a novela Eu Sou Lenda, de Richard Matheson, infelizmente mais conhecida por meio de versões cinematográficas que sempre acabam aquém do original.

(Para quem estiver interessado, há no YouTube uma versão integral de Mortos Que Matam, a primeira — e, temo dizer, possivelmente a melhor — adaptação do filme, com Vincent Price).

Mas a manobra de prestidigitação que substitui o sobrenatural por uma ciência-fetiche em histórias de terror antecede a obra de Matheson, publicada em 1954.

Alguém poderia se sentir tentado a datar o truque a partir da publicação de Frankenstein, de Mary Shelley, cuja edição consolidada apareceu em 1831.

De qualquer forma, fica a questão: por quê? Por quê, num dado momento da história, o clichê do medo do desconhecido e do oculto, da impotência humana diante das forças da natureza e do sobrenatural, se transformou num medo do avanço do conhecimento, do aumento do poder humano sobre a natureza?

Neste sábado vou fazer um bate-papo sobre HP Lovecraft na Biblioteca de São Paulo e, ao compilar minhas anotações, reencontrei a clássica passagem de abertura do conto O Chamado de Cthulhu:

Vivemos numa ilha plácida de ignorância em meio a mares escuros de infinito, e não fomos feitos para viajar longe.

Dificilmente alguém poderia dizer algo mais contrário a minhas convicções pessoais, mas não me nego a reconhecer o poder da fórmula: há um aconchego que vem da limitação do conhecimento, da sustentação da arrogância infundada.

Cthulhu, o demônio que na verdade é um alienígena

Cthulhu, o demônio que na verdade é um alienígena

Se Lovecraft realmente concordava com as palavras do narrador de O Chamado, ou se os Mitos de Cthulhu são uma peça de crítica irônica ao provincianismo humano, é uma questão interessante.

O fato é que ele era um homem relativamente a par dos avanços científicos de sua época: em seu ensaio O Terror Sobrenatural na Literatura, publicado em forma final em 1935, ele menciona, entre os temas  a serem explorados, a “química do interior do átomo” — uma referência à então efervescente teoria quântica.

Mais curioso é notar que O Chamado de Cthulhu, com sua referência a “mares escuros de infinito”, foi escrito em 1926, apenas um ano depois de Edwin Hubble provar que a “Nebulosa de Andrômeda” não era um nuvem de poeira no interior da Via Láctea, e sim outra galáxia, a milhares de anos-luz de distância.

A demonstração de que a Via Láctea não era a totalidade do Universo foi mais um “momento copernicano”, em que o ser humano se viu obrigado a engolir uma pílula de humildade diante dos fatos da natureza.

Não é difícil incluir esses “momentos copernicanos” entre os grandes desencadeadores de obras de “terror científico”. Afinal, foi Blaise Pascal, vivendo na geração intermediária entre Galileu e Newton, quem disse: “O silêncio eterno desses espaços infinitos me aterroriza”.