Antropóloga explica o fascínio gerado pela exposição de corpos humanos

Exposição de cadáveres humanos “Body Words”, do médico alemão Gunther von Hagens, é a mais apreciada do mundo.

taniager

08 Fevereiro 2011 | 10h33

Estudos anatômicos do Renascimento, como este antigo feito por um anatomista do século 16, são usados durante toda a exibição

Estudos anatômicos do Renascimento, como este antigo feito por um anatomista do século 16, são usados durante toda a exibição "Body Words" e em materiais promocionais para potenciais doadores ligarem a exibição de corpos humanos ao antigo estudo de anatomia. A gravura "De Humanis Corporis Frabrica" (Na Fábrica do Corpo Humano) é de Andreas Vesalius, 1543.

A exposição de cadáveres humanos “Body Words”, do médico e anatomista alemão Gunther von Hagens, tornou-se a mais apreciada do mundo ao mesmo tempo que tem gerado muita controvérsia. Como a sociedade tolera – e até mesmo comemora – a exibição pública de corpos humanos? A questão levantada pela antropóloga Jane Desmond da Universidade de Illinois, EUA, é respondida em seu estudo apresentado no artigo “Postmortem Exhibitions: Taxidermied Animals and Plastinated Corpses in the Theaters of the Dead” na revista Configurations recentemente.

No artigo, Desmond, compara o tratamento de espécies no “Body Words”com aquele de taxidermia animal (processo de empalhamento de animais para parecerem vivos). Diferentemente da taxidermia, que foca na aparência externa do animal, o “Body Words” apresenta o interior – os músculos, ossos, nervos, órgãos e sistemas vasculares – de corpos humanos tratados pela técnica criada por Hagens, a “plastinação” (Plastination em inglês – infusão de tecidos mortos com polímeros plásticos. No início, são maleáveis, permitindo que os técnicos os manipulem antes que endureçam.).

Segundo a antropóloga, a falta de identificação do elemento evita ofender os espectadores, chamando sua atenção para longe da pessoa cujo corpo está em exposição e aproximando o corpo como um objeto de admiração ou curiosidade científica.

“Esse processo de subtração retira todos os indicadores sociais, no sentido que idealiza e universaliza essas pessoas, para que se tornem um ser humano indiferenciado simbolicamente, o que nos permite olhar com impunidade, porque não estamos realmente olhando para uma pessoa ou um indivíduo “, disse ela. “Os corpos plastinados de Von Hagens nunca poderiam ser exibidos com suas peles.”

Os corpos parecem realistas e muitas vezes são colocados em poses atléticas. A “plastinação” também deixa os músculos cor-de-rosa, como se estivessem repletos de sangue, dando a impressão de que os corpos ainda estão animados.

“Então, há o esgrimista, o jogador de xadrez, o ciclista, o arqueiro, o patinadores”, disse ela. “E todo mundo se parece com um corredor de maratona.”

Na exposição que Desmond viu em Londres em 2002, os espécimes apresentavam condições perfeitas, exceto por um (um par de pulmões desencarnado e enegrecido pelo cigarro) que mostrava os sinais da causa real ou provável da morte.

“De muitas maneiras, não vemos imagens gráficas da morte”, disse Desmond. “Nós vemos imagens fictícias da morte”.

O contexto em que os corpos são apresentados se destina a aliviar as preocupações morais, éticas e jurídicas que alguns membros do público possam ter sobre a exposição, diz Desmond. Os expositores afirmam nos salões do museu e em seu site que os indivíduos apresentados doaram voluntariamente seus corpos “para a qualificação de médicos e a instrução de leigos.”

Em um possível sinal de permissão para espectadores religiosos, uma das figuras está ajoelhada no que poderia ser interpretado como uma atitude de oração, diz Desmond, se aproximando de um significado que expressa gratidão aos doadores dos corpos.

Desmond observa que os expositores também promovem a exibição como um avanço no estudo da antiga anatomia quando decoram as paredes com gravuras medievais e da renascença, citações de filósofos como Kant e Goethe, além de ilustrações de dissecações. Todo o presente está ancorado no passado e acumula a legitimidade que uma invocação da arte, anatomia e a busca pelo conhecimento podem pagar.  

“Por causa de toda essa animação, por causa do visual frio do cientificismo por meio do qual tudo é construído, devido à despersonalização e à universalização, tudo é tão poderoso que é possível esquecer que estamos em uma sala cheia de pessoas mortas”, acrescentou a antropóloga.