“Maníacos por controle” podem realmente ter memória melhor

Ter autoridade sobre a forma como aprendemos pode aumentar significativamente a capacidade que temos de lembrar destas informações.

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07 Dezembro 2010 | 14h22

Uma pequisa conduzida pela Universidade de Illinois, nos EUA, confirma que ter autoridade sobre a forma como aprendemos pode aumentar significativamente a capacidade que temos de lembrar estas informações. O estudo, publicado na Nature Neuroscience, é também um dos primeiros a olhar para a rede de estruturas cerebrais que contribuem para este processo.

Ter o controle ativo em uma situação de aprendizagem é muito eficaz e nós estamos começando a entender a razão”, diz Neal Cohen, responsável pelo estudo. “Trechos inteiros do cérebro não apenas voltam a ligar, mas também passam a se conectar funcionalmente quando há exploração ativa do mundo”.

O estudo foi focado na atividade de várias regiões do cérebro, incluindo o hipocampo – localizado no lobo medial temporal, perto das orelhas. Há décadas se sabe que esta região é essencial para a memória, em parte porque aqueles que têm esta região lesada por doença ou acidente perdem a habilidade de formar e guardar plenamente novas memórias.

Contudo, o hipocampo não age sozinho: conexões neurais resistentes se prendem a outras estruturas importantes do cérebro, e o tráfego destes dados flui em ambas as direções. Estudos com ressonância magnética funcional (fMRI) – que monitoram o fluxo sanguíneo no cérebro – mostram que o hipocampo é funcionalmente ligado a várias redes cerebrais, ou seja, distintas regiões do órgão que trabalham em conjunto para realizar tarefas críticas.


Para compreender isso melhor em relação à aprendizagem ativa e passiva, os pesquisadores desenvolveram um experimento que exigia dos participantes a memorização em conjunto de objetos e suas localizações exatas em uma grade de computador. Uma tela cinza com uma janela revelava apenas um objeto por ver.

Os indivíduos “ativos” usaram um mouse para guiar a janela e ver os objetos. “Eles podiam olhar o que quisessem, da forma que quisessem, na ordem que desejassem e pelo tempo que achassem necessário, sendo a eles incumbido apenas memorizar tudo na tela”, explicou Joel Voss, que também dirigiu o estudo. Os aprendizes “passivos” viram uma repetição de movimentos gravados em um processo anterior por um indivíduo ativo.

Em seguida, os participantes tiveram que escolher os itens antes observados e colocá-los nas posições corretas na tela. Depois de uma experiência, os indivíduos ativos e passivos inverteram os papéis e repetiram a tarefa com uma nova matriz de objetos. Quem tinha controle ativo sobre a janela de visualização realizou o experimento melhor do que os demais.

Para identificar os mecanismos cerebrais que melhoram a aprendizagem do sujeito ativo, os pesquisadores repetiram os testes em indivíduos com amnésia – uma doença caracterizada pela deficiência no aprendizado de novas informações – como resultado de uma lesão do hipocampo. Para a surpresa dos pesquisadores, estes participantes não se beneficiaram em controlar a janela de visualização.

Os dados sugerem que o hipocampo tem um papel não apenas na formação de novas memórias, mas também possivelmente nos efeitos benéficos do controle volitivo sobre a memória. Imagens do cérebro de indivíduos jovens saudáveis revelaram que a atividade do hipocampo foi maior nos cérebros dos sujeitos ativos durante os testes. Várias outras estruturas do cérebro também estavam mais engajadas quando o assunto era controlar a janela de visualização, e a atividade nestas regiões do cérebro do paciente ficava mais sincronizada com o do hipocampo.

A atividade no córtex pré-frontal dorsolateral, no cerebelo e no hipocampo foi maior e mais bem coordenado nos participantes que tinham controle do espaço. O aumento da atividade no lobo parietal inferior, o córtex parahipocampal e hipocampo corresponderam a um desempenho melhor no reconhecido item.

As novas descobertas desafiam ideias anteriores sobre o papel do hipocampo na aprendizagem: agora, sabe-se que outras regiões do cérebro envolvidas no planejamento e estratégia não pode fazer muito sem o auxílio do hipocampo. Mais do que um jogador passivo na aprendizagem, o hipocampo é como uma parte integrante de um sistema de orientação. Voss compara o processo a um avião: “Você tem todas essas informações de velocidade, você tem uma meta de destino e cada milissegundo está tomado em informações sobre onde você está indo, comparando-a para onde você precisa ir e corrigindo e a atualizando”.