Equipe testa visão de olhos de pedra de molusco quíton

Ao usar olhos de um cristal de carbonato de cálcio, um simples molusco pode ter evoluído bastante sua visão para se defender de predadores.

taniager

15 Abril 2011 | 13h28

Este quíton estriado, cuja extremidade anterior está à direita, vive cerca de 50 metros abaixo da superfície da Ilha Whidbey em Washington, EUA. Crédito: Kirt L. Onthank.

Este quíton estriado, cuja extremidade anterior está à direita, vive cerca de 50 metros abaixo da superfície da Ilha Whidbey em Washington, EUA. Crédito: Kirt L. Onthank.

Ao usar olhos de um cristal de carbonato de cálcio, um simples molusco pode ter evoluído bastante sua visão para se defender de predadores potenciais, dizem os cientistas.

Os moluscos de sete centímetros e meio de comprimento, chamados quítons, têm centenas de estruturas semelhantes ao olho com lentes feitas de aragonita, um tipo de rocha. É a primeira vez que os cientistas descobriram um animal que faz lentes de olho de aragonita e não da rocha calcita, uma prima próxima.

“É surpreendente como essas criaturas fazem seus olhos de rochas,” disse o biólogo Sönke Johnsen da Universidade de Duke, EUA. A maioria dos animais fazem seus olhos de células com proteínas e quitina. “Mas parece ser uma maneira fácil de evoluir os olhos, usando o que você já tem,” acrescentou. Quítons também fazem suas conchas de aragonita.

Johnsen e Daniel Speiser, da Universidade da Califórnia, estudaram quítons frisados do oeste indiano, ou Acanthobunocephalus nicoi, que possuem conchas planas feitas com oito placas separadas. Centenas de minúsculas lentes na superfície das placas cobrem aglomerados de células sensíveis à luz.

Os cientistas descobriram os olhos há décadas. Mas não estava claro se os quítons usavam esses olhos para ver objetos em geral ou simplesmente para perceber mudanças na luz. “Ao girar para fora, podem ver objetos, embora provavelmente não muito bem,” disse Speiser.Os resultados do estudo dos novos quítons serão publicados na revista Current Biology em 26 de abril.

Para testar a visão da criatura, Speiser colocou quítons individuais em uma placa de ardósia. Deixando-os sem serem incomodados, levantariam parte de seu corpo blindado em forma oval para respirar. Neste momento, Speiser lhes mostraria ora um disco preto, variando o diâmetro entre 0,35 centímetros e 10 centímetros, ora uma película cinzenta correspondente que bloquearia a mesma quantidade de luz. O disco ou película apareceriam a 20 centímetros acima dos quíntons.

Os quíntons não responderam às películas cinzentas mostradas. Mas, abaixaram a parte levantada do corpo quando foi mostrado um disco preto de três centímetros ou discos maiores em diâmetro. Isto seria equivalente aos humanos olhando para o céu e vendo um disco com o diâmetro de 20 luas, o que mostra como a visão humana é cerca de mil vezes mais aguçada que a visão do quíton, disse Johnsen.

O fato de os quítons responderam aos discos maiores e não às películas cinzentas, sugere que podem estar vendo o disco e simplesmente não responderem a uma mudança de luz, disse o biólogo de Universidade de Sussex, Michael Land, um especialista na visão dos animais e que não participou da pesquisa. Mas, ainda não está claro se eles respondem somente à remoção de luz pelo disco em oposição à adição de luz. Land acrescentou que provavelmente os olhos dos quítons não tomaram parte na rota da evolução dos olhos humanos.

Os quítons são espécies antigas, primitivas que apareceram pela primeira vez na Terra há mais de 500 milhões de anos. Mas, os mais antigos quítons com olhos só começaram a aparecer no registro fóssil nos últimos 25 milhões de anos, o que faz com que seus olhos estejam entre os mais recentes a evoluir em animais. Speiser acredita que os quítons provavelmente evoluíram para ter olhos com lentes para que pudessem ver e se defender de seus predadores.

Speiser e seus colegas também testaram se os olhos dos quítons funcionam no ar e na água, uma vez que algumas espécies passam o tempo em ambos os ambientes. Os experimentos reforçam os argumentos de que a lente de quíton seja capaz de focar a luz de modos  diferentes, dependendo de o animal estar, ou não, acima da água, disse Land.

Segundo Land, os olhos do quíton ainda são uma anomalia na evolução da visão. As retinas são estruturalmente similares às retinas de caracóis e lesmas. Mas, as retinas de caracóis e lesmas respondem ao aparecimento de luz, enquanto as retinas de quíton só podem responder à remoção de luz, uma diferença que talvez valesse a pena dar um enfoque diferente.