Botox pode mudar a forma como uma pessoa interpreta situações

Teste com pessoas submetidas ao tratamento mostra que expressão facial afeta compreensão da linguagem relacionada às emoções.

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01 Fevereiro 2010 | 13h45

Pesquisa com pacientes submetidos ao tratamento com botox dá pistas de como acontece a interação entre a expressão facial, pensamentos e emoções.

Pesquisa com pacientes submetidos ao tratamento com botox dá pistas de como acontece a interação entre a expressão facial, pensamentos e emoções.

A expressão facial pode dizer ao mundo o que você está sentindo ou pensando. Mas também pode afetar a habilidade para compreender a linguagem escrita relacionada às emoções, segundo uma pesquisa realizada pela Universidade de Wisconsin-Madison, EUA. O estudo se baseou na análise de 40 pessoas que receberam botox. Pequenas aplicações da toxina botulínica foram usadas para desativar músculos que causavam as marcas de expressão.

A interação entre a expressão facial, pensamentos e emoções intriga cientistas há mais de um século, explica o autor da pesquisa, David Havas.

Cientistas descobriram que bloquear a habilidade de mover o corpo pode levar a alterações na cognição e emoções, mas sempre existiram dúvidas. Havas então passou a observar pessoas que se submeteram ao tratamento para paralisar um único par de músculos, que causam rugas na testa ao franzir a testa.
Para testar como este bloqueio poderia afetar a compreensão da linguagem relacionada às emoções, os pacientes tiveram que ler declarações por escrito – antes e depois de duas semanas após o tratamento como o botox. As sentenças foram de raiva (“O telemarketing insistente não vai deixar você voltar para o seu jantar”), tristeza (“Você abre a sua caixa de e-mail no seu aniversário e não encontra novas mensagens”) ou alegres (“O parque aquático é refrescante em um dia quente de verão”).

O pesquisador então avaliou a capacidade de compreender estes enunciados de acordo com a rapidez com que a pessoa apertava um botão para indicar que havia terminado a leitura. “Nós verificávamos constantemente se os leitores de fato tinham compreendido as sentenças, e não apenas pressionado o botão”, explica Havas.

Os resultados não mostraram nenhuma mudança no tempo necessário para compreender as sentenças alegres. Mas, após o tratamento com o botox, os indivíduos levaram mais tempo para ler as frases que envolviam raiva e tristeza. Embora esta diferença de tempo tenha sido pequena, não poderia ser atribuída a mudanças de humor nos participantes.

Havas afirma que o “feedback facial” é uma ideia antiga em Psicologia. “Basicamente, ela diz que quando você sorri, o mundo inteiro sorri com você. É uma velha canção, mas isso é verdade. Contudo, este estudo sugere o contrário: quando você não está franzindo a testa, o mundo parece menos irritado e menos triste”.
A pesquisa é uma novidade por associar a expressão da emoção com a capacidade de compreensão da linguagem. Normalmente, o cérebro mandaria sinais para regiões periféricas para franzir a testa e isso voltaria para o cérebro. “Neste caso, o ciclo é interrompido e a intensidade da emoção e da nossa capacidade de compreendê-la é alterada ao ser incorporada a linguagem”, explica o professor de psicologia da universidade Arthur Glenberg.

O estudo pode resultar em mudanças significativas na área de cirurgia plástica. Mesmo alterando muito pouco, as pessoas tendem a ter respostas rápidas para certas interpretações. Uma alteração do tipo dá pistas sutis sobre o entendimento mútuo, intenção e empatia. Se você é um pouco mais lento ao reagir quando outra pessoa fala algo com muita raiva, pode sinalizar que não “captou” a mensagem. Mas os resultados disso tendem a ser mais positivos: “Se não estou captando as pistas de tristeza no ambiente, é mais fácil ser feliz”.