Brasileiros identificam biomarcador para prognóstico de câncer de pulmão

Estrutura de um representante de ADF/cofilina, proteína que pode ser usada como biomarcador no prognóstico de câncer de pulmão.

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04 Junho 2010 | 13h42

Estrutura de um representante de ADF/cofilina, proteína que pode ser usada como biomarcador no prognóstico de câncer de pulmão de células pequenas. Crédito: Wikipedia.

Estrutura de um representante de ADF/cofilina, proteína que pode ser usada como biomarcador no prognóstico de câncer de pulmão de células pequenas. Crédito: Wikipedia.

A era da medicina “tamanho único” vai finalmente virar história; afinal, não é novidade que drogas e tratamentos não funcionam da mesma forma para todos. Para câncer de pulmão de células não pequenas (CPCNP) – um câncer que mata aproximadamente 1 milhão de pessoas por ano – o tratamento hoje disponível é basicamente o mesmo para todos os pacientes, apesar de alguns responderem ao tratamento e outros não. Novos marcadores biológicos e ferramentas de prognóstico são urgentemente necessários para ajudar os médicos a decidirem a melhor linha de ação para cada paciente com CPCNP. Parece que, agora, isso não está longe da realidade, pelo menos para o tratamento desta doença. 

Atualmente, o prognóstico de CPCNP é feito com base no desempenho geral do paciente e na fase do tumor. Mesmo assim, os médicos não sabem quais pacientes sobreviverão por apenas dez meses ou quais conseguirão se manter por cinco anos.  Agora, um estudo publicado na revista Cancer (“CFL1 expression levels as a prognostic and drug resistance marker in nonsmall cell lung cancer”, DOI 10.1002/cncr.25125 – Níveis de expressão CFL1 como um marcador para prognóstico e de resistência à medicação em câncer de pulmão de células não-pequenas, DOI 10.1002/cncr.25125) apresenta fortes indícios de que uma proteína chamada cofilina (CFL1) pode ajudar os médicos a determinar o prognóstico do paciente e a identificar aqueles que necessitam de um tratamento mais agressivo. O estudo também indica que, com base nesta proteína, os médicos podem decidir quais medicamentos usar e quais evitar, ao tratar pacientes com CPCNP. A possibilidade dos médicos saberem antecipadamente quais drogas poderão atuar melhor em cada paciente, antes de prescrevê-las, representa um grande avanço no tratamento do câncer.

O grupo liderado pelo Dr. Fábio Klamt, pesquisador do Departamento de Bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil, descobriu que os níveis de cofilina podem ser usados para indicar quais pacientes, nos estágios iniciais da doença, tem um bom prognóstico e quais não têm. Enquanto estudavam um grande conjunto de amostras de células de CPCNP, os pesquisadores descobriram que as biópsias nas quais altos níveis de cofilina estavam presentes eram de pacientes que tiveram sobrevida mais curta que aqueles com menor expressão dessa proteína.


Além da correlação encontrada entre cofilina e sobrevida do paciente, o grupo também investigou se os níveis de cofilina podiam fornecer pistas sobre a agressividade do tumor. De acordo com o Dr. Klamt, “a cofilina é uma proteína associada à mobilidade celular. Sabemos que o prognóstico está associado com a capacidade das células se deslocarem para gerar metástases. Assim, parece bem razoável que células com níveis mais baixos dessa proteína sejam menos agressivas, enquanto níveis mais elevados favoreçam  um comportamento mais agressivo.” De fato, o grupo testou seis linhagens de células humanas de três tipos principais de CPCNP e constatou que os tipos com níveis mais elevados de cofilina apresentaram maior potencial para invadir outros locais no corpo, o que indica um comportamento mais agressivo”, explica Dr. Klamt, “Para os pacientes, esta constatação indica que os níveis mais baixos de cofilina significam menores chances de desenvolver metástase, o que leva a um melhor prognóstico”.

O grupo também descobriu que níveis elevados de cofilina se correlacionam à resistência de certas drogas anticâncer, especialmente a cisplatina e carboplatina, que têm sido muito utilizadas para o tratamento de CPCNP. A quimioterapia baseada em cisplatina é o tratamento padrão de primeira linha para pacientes em fase precoce e com bom desempenho. No entanto, apenas alguns respondem bem a este tratamento. Agora os níveis de cofilina podem ser usados para distinguir entre respondedores e não respondedores. Esta nova descoberta pode ter grande impacto sobre as taxas de sobrevida, dado que potenciais não-respondedores podem se beneficiar de diferentes opções de tratamento que não estariam disponíveis de outra forma.

O estudo foi financiado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia do Brasil /  Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (MCT / CNPq), pelos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia em Medicina Translacional (INCT-TM) e pelo “National Cancer Institute – National Institutes of Health” (E.U.A.).

A patente relativa a níveis de expressão CFL1 como biomarcador de prognóstico para CPCNP foi recentemente apresentada no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI) sob o número # PI0802917-2 .

Outros pesquisadores que trabalham no estudo incluem Mauro Antonio Castro Alves, Felipe Dal Pizzol,, Stephanie Zdanov, Marcio Soares, Carolina Beatriz Müller, Fernanda Martins Lopes, Alfeu Zanotto-Filho, Marilda da Cruz Fernandes, Jose Claudio Fonseca Moreira, e Emily Shacter.

Texto: Marcia Triunfol/Publicase Comunicação Científica 
Tradução:  Ciência Diária.