Canais em Marte podem ter sido formados pelo fluxo de lavas

Pesquisadores não descartam a possibilidade de escoamento de água em Marte, nem a existência de outros canais esculpidos por H2O.

taniager

08 Março 2010 | 21h40

A região de Tharsis, incluindo os três vulcões Arsia, Pavonis e Ascraeus, bem como o Monte Olimpo, no canto superior esquerdo. Crédito: NASA / Jet Propulsion Lab Cables.

A região de Tharsis, incluindo os três vulcões Arsia, Pavonis e Ascraeus, bem como o Monte Olimpo, no canto superior esquerdo. Crédito: NASA / Jet Propulsion Lab Cables.

Ao longo do tempo geológico, os rios, por erosão, cavam um leito mais profundo provocando a formação de degraus ou terraços fluviais nas planícies por onde correm. Um bom exemplo é o dos grandes cânions. Pensando estas características, pesquisadores que analisam os canais de Marte tentam buscar uma resposta para o debate, que já dura anos, sobre se os canais do planeta foram formados por água ou lava. A resposta pode fornecer elementos que apoiem ou refutem a hipótese de poder haver, ou ter havido, vida no nosso planeta vizinho.

Jacob Bleacher e seus colegas do Goddard Space Flight Center da NASA, EUA, apresentaram na 41ª Conferência de Ciência Lunar e Planetária, realizada no dia 4 deste mês, o resultado de um estudo cuidadoso de um único canal no flanco sudoeste do vulcão de Marte, Monte Ascraeus, um dos três vulcões agrupados no monte Tharsis.  Segundo eles, o canal foi formado por fluxo de lavas, e não de água, o que contraria a noção dos cientistas de que ao fluxo de lava não poderia formar canais tão delicados e sinuosos quanto os que a água forma.

Bleacher explica que a ideia de haver água em Marte surgiu da observação que os cientistas fizeram das imagens detalhadas da erosão do solo deste planeta e que apresentavam as mesmas características observadas em erosões de solo pela água na Terra: demarcação das paredes do canal, a formação de pequenas ilhas em um canal, afluentes que terminam em nada, e rede de canais que se ramificam e voltam a se unir ao ramo principal.  A lava, por sua vez, escava o solo em grandes canais abertos como os encontrados no Havaí.


Contrariar a noção tradicional só foi possível a partir de imagens de alta resolução tiradas da superfície de Marte por três câmaras — a  Thermal Emission Imaging System (THEMIS), a Context Imager (CTX) e a High/Super Resolution Stereo Color (HRSC) , bem como dados recentes do altímetro a laser que orbita Marte (MOLA).

Em uma das extremidades do canal observado, em uma área nunca vista claramente antes, Bleacher e os colegas encontraram uma crista que parece ter fluxos de lava que sai dele. O pesquisador esclarece que o canal, coberto como um tubo de lava, apresenta aberturas onde a lava é forçada para fora do tubo e cria assim, estruturas pequenas. Estas características não são de canais formados pelo fluxo de água. Tampouco seria plausível pensar a outra extremidade sendo formada pela água; esta seria uma “combinação exótica”, argumenta ele. O mais provável é todo o canal resultar do fluxo de lava.

Bleacher, junto com W. Brent Garry e Zimbelman Jim na Smithsonian Institution, em Washington, examinaram os 51 quilômetros de fluxo de lava da erupção de 1859 do Mauna Loa no Big Island do Havaí para descobrir que tipos de características a lava pode produzir. A ilha de aproximadamente um quilômetro de extensão no meio do canal é bem maior do que as ilhas normalmente identificadas dentro de fluxos de lavas. Outras características também encontradas no canal formado pelo fluxo de lava, como formação de terraços no interior destes canais, canais que saem e simplesmente desaparecem, canais que se interrompem dentro do canal principal, e paredes verticais de 9 metros de altura, são as mesmas que Bleacher e sua equipe observaram no canal de Marte.

Outra evidência de que tais características podem ser criadas por fluxos de lava vieram da análise de uma imagem detalhada de canais da Imbrium Mare, uma mancha escura na lua que é, na verdade, uma grande cratera cheia de rochas de lavas antigas. Nesta imagem, também, os pesquisadores encontraram canais com paredes de formação em terraços e canais secundários ramificados.

Bleacher observa que as conclusões da equipe não descartam a possibilidade de escoamento de água em Marte, nem a existência de outros canais esculpidos pela água. O resultado do estudo apenas descarta a ideia anterior do canal estudado ter sido formado pelo fluxo de água.

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