"Tentáculos" em células do câncer podem ter papel crucial na metástase

Pesquisadores estudam como proteína atua em estruturas que auxiliam a formação de cânceres secundários no organismo.

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15 Março 2010 | 16h05

Membrana plasmática na célula de câncer de mama atuaria como

Membrana plasmática na célula de câncer de mama atuaria como "microtentáculo" para se espalhar pelo organismo.

Pesquisadores da Universidade de Maryland descobriram que microtentáculos podem desempenhar um papel fundamental na metástase. O crescimento destas extensões da membrana plasmática de células de câncer de mama é induzido por uma proteína chamada “tau”. Quando uma célula de tumor forma estas estruturas, ela se desgruda do cancro primário e passa a circular no sangue, aglomerando-se em vasos sanguíneos para formar cânceres secundários em outras regiões do corpo.

Os resultados da pesquisa são promissores porque identificam a maneira pela qual uma célula de câncer se espalha pelo organismo com a ajuda de uma substância específica. Um tratamento que atue neste processo pode ser uma forma inovadora de prevenir ou retardar o crescimento de cancros secundários – evitando o processo conhecido como metástase. “Esperamos que seja possível identificar drogas orientadas ao crescimento desses microtentáculos, ajudando a parar a propagação do câncer original. Drogas que reduzam a expressão do tau podem deter a metástase”, diz  Stuart Martin, autor sênior do trabalho.

De acordo com a equipe, a proteína “tau” já tinha sido observada nos tecidos cerebrais de pacientes com a doença de Alzheimer, embora este seja o primeiro relatório a indicar a relação com a transformação de uma célula cancerosa. “Nosso estudo demonstra que a tau promove a criação de microtentáculos em células de tumor de mama. Eles podem aumentar a capacidade de circulação das células tumorais de mama para se recolocarem nos pequenos capilares do pulmão, onde podem sobreviver até que semeiem novos cânceres”, ressalta Martin.

Células saudáveis são programadas para morrer – um processo chamado apoptose – após se desfazerem das camadas epiteliais que cobrem os órgãos internos do corpo. Elas também podem ser esmagadas, se forem forçadas através de pequenos capilares. No entanto, células cancerosas são capazes de sobreviver por semanas, meses e até anos no corpo. Uma vez que elas estão presas a pequenos vasos sanguíneos, podem se espremer, passando por aberturas microscópicas no tecido, afetando outros órgãos como cérebro, pulmão e fígado.

Células resistentes, tratamentos limitados

A metástase é a principal causa de morte de pessoas com câncer. Apesar de tudo, os métodos usados para tratar os tumores primários limitam o sucesso no tratamento de cânceres secundários. No câncer de mama, metástases podem ocorrer depois de anos após o diagnóstico do tumor inicial.

A tau está presente em um subconjunto de cânceres de mama resistentes a quimioterapia e está sempre associada ao mau prognóstico da doença. Mas, Martin acrescenta: “Enquanto a expressão do tau esteja sendo estudada em relação à resistência para a quimio, o papel da proteína nas células tumorais que circulam na corrente sanguínea não foi estudado. E este é o foco da nossa investigação”.

No estudo em questão, pesquisadores da Universidade de Maryland analisaram células do tumor de mama em 102 pacientes, descobrindo que 52% tinham a tau em seus tumores metastáticos e 26% apresentaram um aumento significativo do tau quando o câncer progrediu. Os resultados mostram ainda que 22 pacientes tinham a “tau” em tumores de metástase embora não tivesse em tumores primários.

Estudos complementares ainda são necessários para saber se o tau é mesmo um indicador claro de matástase. Dada a natureza complexa dos tumores, é provável que outros fatores também favoreçam a distribuição do câncer no organismo.

Contudo, a pesquisa aponta um fato interessante que já deve levar ao estudo imediato dos efeitos da quimioterapia sobre o câncer: uma droga popularmente usada na quimio, o taxol, pode induzir o crescimento de tentáculos, permitindo que o tumor se espalhe rapidamente.

“Acreditamos que são necessários mais estudos sobre como a quimioterapia pode desacelerar a divisão celular sem induzir a metástase. O momento de tratar pacientes com estas drogas pode ser particularmente importante. Se você tratar pessoas com taxol antes da cirurgia para retirar o tumor primário, os níveis de circulação das células cancerosas sobrem de mil a 10 mil vezes, aumentando o risco de metástase”.

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