Metodologia científica: cérebro formula hipótese que será testada

Quando o cérebro acerta uma previsão, é recompensado estando apto a reagir de forma eficiente. Se erra, respostas “de peso” são necessárias.

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11 Março 2010 | 17h26

O cérebro não prevê o imprevisível: a atividade (pontilhado) do canto esquerdo para cima, a direita, mostra o trabalho do córtex visual primário. Na figura a direita, vemos como o cérebro

O cérebro não prevê o imprevisível: a atividade (pontilhado) do canto esquerdo para cima, a direita, mostra o trabalho do córtex visual primário. Na figura a direita, vemos como o cérebro "erra" nas previsões. Crédito: Max Planck Institute for Brain Research.

Ciência é todo o ramo de conhecimento que se baseia em uma metodologia científica. Eis que a formulação de uma hipótese existe para ser testada, determinando assim se um fato é válido ou não. O homem demorou para colocar em prática este modelo de observação da natureza, mas o órgão mais complexo do nosso corpo já faz isso há tempos: pesquisadores do Instituto Max Planck,na Alemanha, e da Universidade de Glasgow, Escócia, estão mostrando que é exatamente isso que o cérebro faz tão bem – se esforçando bem menos para registrar o que é previsível.

A equipe de pesquisadores chegou a esta conclusão pelas características das respostas do córtex visual primário, conhecidamente essencial para a visão (fazendo com que suas respostas criem um mapa do que estamos olhando em um momento específico). Entretanto, pela primeira vez cientistas notaram que imagens induzem respostas mais fracas nesta área quando uma informação é previsível. Significa que a sua massa encefálica não é do tipo que senta e espera para ver, mas que tenta ativamente prever sinais.

Quando o cérebro acerta uma previsão, ele é recompensado pelo fato de estar apto a reagir de forma muito mais eficiente. Se erra, respostas “de peso” são necessárias para descobrir por que aquela previsão estava errada, propondo previsões mais plausíveis para o problema.

Funciona mais ou menos assim: o fato de chegar em casa e ver sua mulher sentada no sofá exige bem menos esforço do cérebro para cadastrar a informação. É o que você esperava. Ao chegar e encontrar uma visita desagradável, contudo, seu cérebro entra em parafuso – porque não esperava isso. Não necessariamente por que você gosta (ou não) dessa pessoa, mas porque a imagem deixa claro ao seu cérebro que ele está fazendo um péssimo trabalho em predizer o que vai acontecer e terá que se esforçar mais para melhorar estas previsões. Isso sugere que a principal função do cérebro, semelhante a de um cientista, é o de gerar hipóteses sobre o que está ocorrendo no mundo exterior.

O estudo representa um avanço significativo na compreensão de como o cérebro trabalha com a percepção visual. Uma implicação importante é que a percepção visual depende de uma série de previsões. Isso contrasta com a visão clássica de que a percepção visual decorre principalmente de uma série de respostas automáticas para sinais visuais que se espalham no cérebro.

Outras pesquisas ainda são necessárias para determinar se realmente todos têm um pouco de cientista na cabeça. De qualquer forma, a ideia de um cérebro científico já está se espalhando rapidamente por toda a neurociência, proporcionando uma nova abordagem sobre como o órgão mais complexo do corpo funciona.

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