Cientistas criam a primeira célula com genoma totalmente artificial

Pesquisadores do Instituto J. Craig Venter inseriram código genético sintetizado em laboratório em uma célula de bactéria.

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20 Maio 2010 | 17h41

Imagem mostra a divisão da M. mycoides JCVI-SIN1. Crédito: JCVI.

Imagem mostra a divisão da M. mycoides JCVI-SIN1. Crédito: JCVI.

Cientistas do Instituto J. Craig Venter, uma organização sem fins lucrativos de pesquisa genômica, anunciaram hoje a criação de uma célula bacteriana com genoma artificial. A equipe sintetizou mais de um milhão de pares de base cromossômicos de um Mycoplasma mycoides, provando que códigos genéticos podem ser projetados em um computador, produzidos quimicamente em laboratório e depois transplantados em uma célula “receptora”, capaz de se replicar.

“Por quase 15 anos, Ham Smith, Clyde Hutchison e o resto da nossa equipe estiveram trabalhando para esta publicação de hoje, a finalização bem-sucedida do nosso trabalho para construir uma célula bacteriana que é totalmente controlada por um genoma sintético”, ressalta J. Craig Venter, fundador e presidente do JCVI e autor sênior do artigo. “Nós temos sido consumidos por esta pesquisa, mas também temos focado igualmente na abordagem das implicações sociais do que acreditamos ser uma das mais poderosas tecnologias e condutores para o bem da sociedade industrial. Aguardamos com expectativa a revisão contínua e o diálogo sobre as importantes aplicações deste trabalho para garantir que ele é usado para o benefício de todos”.

De acordo com o pesquisador, as técnicas que levaram à criação da primeira célula sintética podem oferecer o conhecimento necessário para o conjunto de instruções genéticas de uma célula bacteriana e de outros organismos.

Mais de uma década de suor

O genoma sintético completo da M. mycoides foi isolado de outras células de levedura e transplantado em células “recipientes” de Mycoplasma capricolum. O genoma sintético foi então transcrito pelo RNA mensageiro, que por sua vez traduziu a informação para a produção de novas proteínas. O genoma do M. capricolum foi destruído ou perdido durante este processo. Após dois dias, os pesquisadores conseguiram chegar às células contendo apenas código genético criado em laboratório.

“Para produzir uma célula sintética, o nosso grupo teve de aprender a sequência, sintetizar e transplantar os genomas. Muitos obstáculos tiveram que ser superados, mas estamos agora com a possibilidade de combinar todas estas etapas para produzir células sintéticas em laboratório”, acrescentou Daniel Gibson, autor do artigo. “Podemos começar agora a trabalhar o nosso objetivo final de sintetizar uma célula mínima, contendo apenas os genes necessários para sustentar a vida na sua forma mais simples”.

O reconhecimento do feito foi possível graças à inserção de marcas d’água no genoma, por meio das quais se consegue provar que o código é sintético e não natural.

O artigo que descreve a descoberta será publicado na Science Expresse e aparece na próxima edição impressa da Science.

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