Cientistas desvendam o mecanismo natural de aprendizagem de som

Reconhecer a voz de um ente querido pode parecer simples, mas exige um mecanismo complexo de aprendizagem auditiva rápida de sons.

taniager

28 Maio 2010 | 17h39

Nosso ouvido é extraordinariamente eficaz para distinguir os padrões sonoros.

Nosso ouvido é extraordinariamente eficaz para distinguir os padrões sonoros.

Reconhecer a voz de um ente querido pode parecer simples, mas exige um mecanismo complexo de aprendizagem auditiva rápida de sons. O resultado de estudo realizado por pesquisadores do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) associado às Universidades de Paris e Toulouse, França, revela que um mecanismo natural de aprendizagem auditiva nos seres humanos permite identificar e memorizar padrões sonoros complexos de forma muito rápida, eficiente e permanentemente. 

Este mecanismo pode estar também associado à reaprendizagem de certos sons. O trabalho, que abre novas perspectivas para a compreensão de processos de memorização auditiva, foi publicado na revista Neuron ontem. 

Estudos anteriores sobre memória auditiva haviam abordado sons simples ou a linguagem, mas agora três pesquisadores franceses estudaram sons complexos e exploraram a capacidade humana de memorizá-los. 

A experiência foi realizada com voluntários submetidos a várias amostras sonoras. Ruídos gerados de forma aleatória e imprevisível foram aplicados aos indivíduos do teste para que eles não pudessem reconhecer sons ou associá-los a qualquer significado.  Os ouvintes não foram informados de que um padrão sonoro complexo seria repetido durante a experiência. 

Como o ser humano memoriza um som? 

Daniel Pressnitzer, pesquisador envolvido no estudo, argumenta que o nosso ouvido é extraordinariamente eficaz para distinguir os padrões sonoros. Os ouvintes são capazes de reconhecer de maneira quase infalível o padrão sonoro que lhes foi apresentado várias vezes: escutar duas vezes foi o suficiente para pessoas habituadas com os sons, somente uma dúzia de vezes foi necessária para menos treinados. A repetição sonora induz a uma aprendizagem extremamente rápida e eficaz. Ela se coloca implicitamente (ela não é supervisionada). Além disso, essa memória do ruído pode persistir durante várias semanas. Duas semanas após a primeira experiência, os voluntários identificaram, na primeira tentativa, o padrão sonoro de ruído aplicado na experiência anterior. 

O resultado da experiência demonstrou que a aprendizagem auditiva é rápida, sólida e perene. Existe um mecanismo de plasticidade auditiva rápida – envolve a capacidade de um neurônio auditivo para modular o tipo de resposta rápida a uma estimulação sonora – que intervém de forma extremamente eficaz em nossa aprendizagem do universo sonoro. 

Esse processo é provavelmente essencial para identificar e memorizar os padrões sonoros recorrentes em nosso ambiente acústico, como a voz de um ente querido. Com ele os seres humanos aprendem a associar o som com o objeto que é a sua causa. 

Os pesquisadores acreditam que este mesmo mecanismo também poderia estar envolvido na reaprendizagem: muitas vezes isto é necessário após alterações bruscas de audição. 

O conhecimento que o estudo trás também pode colaborar para a reeducação auditiva de pessoas que estão começando a usar aparelhos para surdez. Estas pessoas precisam de um tempo de adaptação a essas próteses para que elas se habituem novamente a entender os sons que elas não percebiam mais ou percebiam de forma diferente.

Veja também:
Tão longe, tão perto: o mero fato de escutar a voz materna acalma
Pessoas com Alzheimer memorizam melhor mensagens cantadas
Mutações de genes podem explicar gagueira persistente em adultos