Coluna de Psicologia: a família como instituição, necessidade e função

Psicóloga Regiane Canoso começa o ano falando sobre o ambiente de geração dos significados, referência de cada indivíduo.

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06 Janeiro 2011 | 22h24

Olá leitores, estamos iniciando novamente mais um ano, espero que tenham tido um final e um começo de ano iluminado…

Bom, resolvi iniciar os textos que escrevo falando da família, vamos lá ao assunto…

É impossível entender o grupo familiar sem considerá-lo dentro da complexa trama social e histórica que o envolve. A partir disso, podemos considerar alguns fatos. O primeiro é que a família não é algo natural, biológico, mas uma instituição criada pelos homens, que se constitui de formas diferentes em situações e tempos diferentes, para responder às necessidades sociais. Sendo uma instituição social, possui também para os homens uma representação que é socialmente elaborada e que orienta a conduta de seus membros.

O segundo é que a família, qualquer que seja sua forma, constitui-se em torno de uma necessidade material: a reprodução. Isso não significa que é necessário haver uma determinada forma de família para que haja a reprodução, mas que esta é a condição para a existência da família.

O terceiro fato a se considerar é que, além de sua função ligada à reprodução biológica, a família exerce também uma função ideológica. Isto significa que, além da reprodução biológica, ela promove também sua própria reprodução social: “é na família que os indivíduos são educados para que venham a continuar biológica e socialmente a estrutura familiar”.

Ao realizar seu projeto de reprodução social, a família participa do mesmo projeto global, referente à sociedade na qual está inserida. É por isso que ela também ensina como se comportar fora das relações familiares em toda e qualquer situação.

O mundo da família é o ambiente de geração de significados que vão constituir um sistema de significados. O surgimento de significados nessa nova unidade relacional permite a fundação do mundo da família, constituindo-se no horizonte referencial na vida da família e de cada um de seus membros.

Estar vivendo nesse mundo revela uma relação contínua e dinâmica com outros seres humanos, integrando e definindo a unidade de relação complexa que é a família, sobre a base de sentimentos de referência que seu mundo torna possível. No mundo da família são possíveis, ao mesmo tempo, uma história de vida particular de cada membro e uma história de vida compartilhada. Esta história de vida compartilhada tem características próprias faz com que cada indivíduo se torne o ser da família.

A família tem estado em evidência. Por um lado, ela tem sido o centro de atenções por ser um espaço privilegiado para arregimentação e fruição da vida emocional de seus componentes. Por outro, tem chamado atenção, pois, ao mesmo tempo em que, sob alguns aspectos, mantém-se inalterada, apresenta uma gama de mudanças.

É comum ouvirmos referências sobre a “crise familiar”, o “conflito de gerações”, a “morte da família”, e isso suscita polêmicas. Para alguns, família é a base da sociedade e garantia de uma vida social equilibrada, célula sagrada que deve ser mantida intocável a qualquer custo. Para outros, a instituição familiar deve ser combatida, pois representa um entrave ao desenvolvimento social: é local onde as neuroses são fabricadas e onde se exerce a mais implacável dominação sobre crianças e mulheres.

O que não pode ser negado é a importância da família tanto ao nível das relações sociais, nas quais ela se inscreve, quanto ao nível da vida emocional de seus membros.

Compartilhando as ideias de REIS, considero que é na família, mediadora entre o indivíduo e a sociedade, que aprendemos a perceber o mundo e a nos situarmos nele. É a formadora da nossa primeira identidade social. Ela é o primeiro “nós” a quem aprendemos a nos referir. Com isso, os relacionamentos iniciais são a base para uma estrutura emocional. Vale a pena dizer que as experiências vividas das crianças com seus cuidadores, em relação à aproximação ou ao distanciamento, podem ser entendidas como as mais significativas e responsáveis pela formação das estruturas infantis. Os processos de vinculação são importantes no desenvolvimento da saúde mental, e qualquer situação inadequada na relação criança-cuidador proporcionará condições poucos adequadas à manutenção do equilíbrio psicológico. Toda relação entre criança-cuidador, quando estruturada, será sentida como equilibrada e tranquila, ou, caso seja o contrário, será dolorosa e insatisfatória.

Quando fala em cuidador, refere-se à pessoa designada a tranquilizar todas as necessidades do bebê, da criança em especial à mãe, numa relação em que ambos encontrem satisfação e prazer.

Uma criança não é um organismo de vida independente e, por isso, necessita de uma instituição social especial que a ajude durante o período de imaturidade. Sendo assim, esta instituição sentida e entendida como família, deve auxiliar a criança de duas maneiras: no primeiro momento ajudando a criança a satisfazer suas necessidades imediatas, tais como alimentação, abrigo e proteção; e num segundo momento proporcionando a criança um ambiente no qual possa desenvolver ao máximo suas capacidades físicas, mentais e sociais, para poder lidar eficazmente, quando adulta, com o seu meio físico e social. Para que isso ocorra é necessário um ambiente de afeição e segurança.

Conforme a criança vai crescendo, ela vai construindo, criando, de acordo com suas próprias significações, crenças, costumes, necessidades, possibilidades, uma forma que a ajude a viver a sua vida, e poder ser ela mesma. Todo estudo que se fizer do indivíduo terá sempre que se remeter ao grupo ao qual ele pertence, à classe social, enfocando a relação dialética homem-sociedade, atentando para os diversos momentos dessa relação.

Há momentos na história da família em que o sistema de relacionamento pode encontrar-se interrompido com alguns integrantes da família. Isso se deve a discordância em suas possibilidades de ser, de perceber, de compreender e interpretar seu mundo individual e seu mundo familiar.

Um abraço a todos os leitores. Volto com mais textos em breve…

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Regiane L. Canoso Lopes é psicóloga, especializada em psicologia junguiana e psicologia hospitalar. Assina esta coluna quinzenalmente. Caso tenha sugestões, críticas ou perguntas, mande um e-mail para rcanoso@cienciadiaria.com.br.