Relação entre depressão infantil e rendimento escolar

Psicóloga Regiane Canoso explica quais são os sinais da doença em crianças e por que o diagnóstico pode ser tornar uma tarefa tão difícil.

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21 Janeiro 2011 | 16h20

Olá, leitores! Como iniciei os textos deste ano falando sobre a família, foi pedido por meio de amigos e leitores que eu pudesse falar sobre depressão infantil e de uma maneira mais particular depressão infantil e rendimento escolar. Ressalto que o assunto é muito extenso e que maiores informações devam ser aprofundadas com profissionais da área. Aqui, vou fazer um breve apanhado de um assunto muito importante e complexo.

Desde o início do século 19 existem tentativas de estudo deste tema. Os primeiros estudos versavam sobre a compreensão psicanalítica da dinâmica psíquica da depressão na infância. Na psiquiatria, estudos desta natureza começaram a surgir na década de 60.

Segundo o DSM IV (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais), a depressão na infância assume semelhanças em relação à depressão no adulto com pequenas ressalvas. Os mesmos critérios diagnósticos adultos podem ser utilizados na infância. Os sintomas descritos pelo manual são: humor deprimido na maior parte do dia, ausência de interesse nas atividades diárias, pouca energia, alteração de sono, apetite e na atividade motora, sentimento de inutilidade, dificuldade para se concentrar, pensamentos ou tentativas de suicídio. As ressalvas apontadas pelo DSM IV apontam que uma criança deprimida pode apresentar humor irritável ao invés de tristeza, comum no adulto; ou apresentar déficit no rendimento acadêmico devido ao prejuízo da capacidade de manter a atenção.

A depressão deve ser olhada com uma multideterminação de fatores, pois nela participam fatores sócio-familiares, psicológicos e biológicos, onde as teorias precisam sempre apontam para uma concepção biopsicossocial do sujeito. A incidência tende a se elevar na adolescência, e parece não existir significativa diferença entre gêneros até essa fase. De acordo com Soares, 1993, meninas parecem ser mais acometidas do que meninos.

Indicadores que podem facilitar a identificação de distúrbios depressivos:

– queda no rendimento escolar, baixo interesse em aprender

– tristeza

– disforia: mudança repentina e transitória de estado de ânimo (tristeza, pena, angústia)

A não identificação de depressão na infância é fator de risco para desenvolvimento de baixa auto-estima, baixo rendimento escolar e problemas de relacionamento futuro.

Inúmeros autores assinalam os equívocos em desconsiderar a relevância de sinais de problemas psicológicos, pois eles podem demonstrar longevidade e interferir negativamente no desenvolvimento de uma criança.

Há vários estudos a respeito da relação entre depressão infantil e rendimento escolar. As principais alterações estão nas funções cognitivas como atenção, concentração, memória e raciocínio. É alta a incidência de sintomas depressivos em crianças com dificuldades escolares quando comparada com populações de depressão sem presença de dificuldade de aprendizagem.

O baixo rendimento escolar decorrente da depressão parece estar associado com as dificuldades destas crianças em prestar atenção na explicação, apesar de terem habilidades cognitivas correspondentes à faixa etária. Dificuldades de aprendizagem e sintomas de desordem afetiva costumam ser confundidas, e essa situação demanda uma investigação cuidadosa. É necessário verificar qual o quadro primário, a depressão ou a dificuldade de aprendizagem para que o encaminhamento de tratamento seja adequado. Sabe-se que crianças com dificuldades de aprendizagem e baixo rendimento escolar demonstram mais sintomas depressivos do que crianças sem queixas acadêmico.

Alguns autores utilizam o termo de “depressão mascarada”, referindo-se a outros problemas de comportamento presentes na infância (ex: enurese, hiperatividade, insônia) que estariam mascarando uma depressão.

Apesar de outras controvérsias, há um consenso entre os autores de que, independente da faixa etária, a depressão produz prejuízo no funcionamento do indivíduo tais como alterações na forma de pensar, alterações de humor, comportamento e orgânicas.

– alterações no pensar: tendem a interpretar os fatos de forma negativa, disfuncional e distorcida. Tendência a oferecer menor atenção aos eventos positivos da vida.

– alterações do humor: geralmente revela-se através de humor irritável. No adolescente, é comum sentimento de tédio e vazio.

– alterações de comportamento: mais observadas na criança do que no adulto. Na criança – cansaço, fadiga, falta de energia e interesse pelas atividades diárias, baixa concentração e prejuízo nas relações sociais.

– problemas orgânicos: alteração no apetite, hábitos de sono, lentidão ou agitação psicomotora. Queixas somáticas também são comuns – dores de cabeça, dores de estômago e enurese.

Sintomas de acordo com o gênero: em meninas, é mais comum encontrar queixas de choro, enquanto que nos meninos há maior frequência de sintomas de disforia, ansiedade, irritabilidade. Em ambos os sexos, é comum encontrar queixas somáticas como dores abdominais, cefaleia, náuseas e alta frequência de pensamentos negativos.

O reconhecimento dos sintomas é difícil uma vez que eles podem ser facilmente confundidos com outras alterações como hiperatividade, alterações de conduta e agressividade, e também estar presente sob a forma de comorbidade. Os principais sintomas podem aparecerem de forma diferente no ambiente escolar. Assim, é importante estar atento a sinais como: expressão de tristeza, mudança no nível de atividade, diminuição do rendimento escolar, isolamento social, fracasso em terminar as tarefas, agressividade e verbalizações negativas.

Não há dados científicos que apresentem a dificuldade de aprendizagem como fator de risco para o desenvolvimento de depressão, mas alguns autores sustentam relação nesta direção, tais com Seligman e Cols, argumentando que a percepção de não atingir as próprias expectativas e as dos demais produz sentimentos negativos de frustração, inferioridade e incapacidade. Há autores que defendem ser a depressão um fator de risco para dificuldades de aprendizagem, pois existiria uma relação temporal entre o início dos sintomas e a queda no rendimento escolar bem como a melhora no desempenho escolar acompanharia também a melhora do quadro de depressão em tratamento. Isso aponta a necessidade de mais estudos na área, principalmente focando a importância da identificação e intervenção precoces com vistas a desenvolver atuações de natureza preventiva.

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Regiane L. Canoso Lopes é psicóloga, especializada em psicologia junguiana e psicologia hospitalar. Assina esta coluna quinzenalmente. Caso tenha sugestões, críticas ou perguntas, mande um e-mail para rcanoso@cienciadiaria.com.br.