Coluna de Psicologia: como o homem acolhe a paternidade

Psicóloga Regiane Canoso recai hoje sobre as diferenças entre a natureza da mulher e do homem em relação ao nascimento de uma criança.

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22 Outubro 2010 | 11h31

Olá, pessoal. O assunto dessa semana será retomado do texto anterior, em que abordei o Pai e a Mãe Pessoal. Contudo, o texto de hoje dará mais ênfase à figura do Pai, no aspecto do Paterno. Penso ser importante, uma vez que este assunto e questões relacionadas a essa figura quase não é discutido ou lembrado. Vou começar com este texto de Alberto P. L. Filho.

“O pai bom não dá o peixe, mas informa e ensina sobre a técnica da pescaria, terrível é o pai que come o peixe que o filho pesca, ou aquele que aprisiona o conhecimento, sonegando potência ao filho; ou, ainda, aquele que desqualifica o filho que não sabe pescar como ele, obrigando-o a carregar sua sombra, isto é, a identificar-se com as projeções de suas falácias, defeitos, inferioridades e temores.”

A disponibilidade ou a restrição de um homem para acolher a paternidade vão depender do masculino com o qual está identificado e com o status que ocupa na rede de hierarquias patriarcais “se ainda é filho, ou se já pode ser pai”. Se a masculinidade internalizada pelo homem for semelhante ao do Pai arquetípico, é possível que a chegada do filho o faça sentir-se ameaçado como indivíduo e como detentor do poder.

O homem que se torna pai precisa suportar a divisão de bens, materiais, sociais, psíquicos, anímicos e espirituais, e o faz sob o sentimento de ameaça à preservação de sua individualidade. Para o pai, o nascimento da criança tem caráter mágico, enquanto para a mãe esse fenômeno tem palpabilidade inegável. Tendo distanciado do momento matriarcal (concretude vivida, porém enfraquecida na memória) e não passando pela experiência da gravidez no corpo, o homem experimenta grande exterioridade em relação ao fenômeno de gravidez e nascimento do filho. A natureza individualista e independente do homem, em contraste à natureza relacional da mulher, contribui para explicar esse sentimento de exclusão e de exterioridade.

O homem se relaciona com a ideia de paternidade, enquanto à mulher se relaciona com a concretude corpórea da maternidade. Vou falar das diferenças entre o amor materno e o amor paterno, usando Stevens como referência, da seguinte maneira:

A criança nunca esteve, antes, fisicamente unida ao pai ou dele dependeu no que se refere ao corpo, para se alimentar; assim, o pai é a primeira pessoa que a criança ama numa base espiritual, oposta à base física. À medida que este relacionamento vai amadurecendo, há também uma consciência cada vez maior da parte do filho de que o afeto ligado ao pai difere em qualidade do afeto materno: ele é menos envolvente, e não é tão crítico. Para a mãe, geralmente, é suficiente que o filho exista: o amor que ela lhe tem é absoluto e, de modo geral, incondicional. O amor paterno, por sua vez, é algo mais exigente: é um amor contingente, condicionado à aceitação de certos valores, padrões e formas de conduta, aceitáveis de sua parte.

“O amor da mãe é leite. O “amor” paterno não se sabe o que é. O amor da mãe é aqui e agora; o do pai é lá e então, é uma perspectiva para o futuro” (STEVENS)

A ligação do filho com a pessoa que para ele é uma figura paterna tem sempre um caráter espiritual-religioso. O que varia é o caráter do pai: bom, justo ou terrível. O próximo texto o assunto será referente ao Pai, qual a sua importância no destino do filho. Até o próximo texto…

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Regiane Canoso é psicóloga e estreia sua coluna quinzenal no Ciência Diária a partir de hoje.Regiane L. C. Lopes é psicóloga, especializada em psicologia junguiana e psicologia hospitalar. Assina esta coluna quinzenalmente. Caso tenha sugestões, críticas ou perguntas, mande um e-mail para rcanoso@cienciadiaria.com.br.