Coluna de Psicologia: o que determina a harmonia entre pais e filhos

A psicóloga Regiane Canoso explica como a evolução do filho depende do lugar que a criança ocupa na psique dos pais.

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07 Dezembro 2010 | 03h08

Uma vez que o homem civilizado possui uma consciência diferenciada, ele pode utilizá-la como um instrumento eficaz para a realização de seus conteúdos através da dinâmica da vontade, mas com isso corre o risco de perde-se na unilateralidade desviando-se das leis e raízes do seu ser. Por um lado isso pode representar a possibilidade da liberdade humana, mas, por outro, é fonte de infindáveis transgressões contra os instintos.

Por mais patriarcal que seja a orientação da cultura, nenhum pai real dá conta de ser tão poderoso, nem tão arquetipicamente orientado, a ponto de excluir radicalmente o Eros e o feminino. O que vai decidir a respeito da saúde e do equilíbrio, de um lado, ou da doença e da harmonia, de outro, é a força arquetípica sobre a representação da cultura na psique dos indivíduos, homens ou mulheres, e a força dos fundamentos arquetípicos da psique global. Quando, por ocasião da criação dos filhos, mãe e pai já se encontrarem em uma perspectiva de alteridade, a unilateralidade patriarcal da cultura fica compensada pelo equilíbrio na orientação familiar.

De certo modo, portanto, à deflação da mãe corresponde uma inflação do pai. Que esse processo natural resulte em um fim sadio ou doente vai depender da maturidade do desenvolvimento da mulher e do homem para significar o filho, a noção de maternidade e a noção de paternidade; ou seja, dependerão da resposta para a questão: qual o lugar do filho na psique dos pais?

Os homens contemporâneos têm poucas ocasiões de viver e atualizar o seu potencial masculino na presença de um pai. O desenvolvimento da era industrial diminui ainda mais os momentos de contato entre ambos. Esta ausência do representante (pai) é danosa para a personalidade: se faltam regras e limites, o filho dilui-se no mundo, invade-o, ou se deixa invadir no lugar de se relacionar. E no mais extremo, torna-se rígido, uma vez que a prontidão psíquica para a constelação do arquétipo paterno se responsabiliza para preencher as lacunas da consciência com os conteúdos brutos do arquétipo a ser ativado.

Em seus aspectos “bons”, o pai remete ao crescimento, ao desenvolvimento, à evolução do filho. Entretanto, em seus aspectos “ruins” o pai impede, boicota e nega ao filho a potência capaz de libertá-lo de suas amarras. Mas, ao mesmo tempo, é o pai que demonstra ao filho as armas com as quais irá se libertar dele, exemplificando com seu poder – o poder que, por um mecanismo evolutivo de inveja, será estruturante para o filho e lhe permitira, mais tarde, passar para o dinamismo de alteridade.

Na perspectiva da formação de uma criança, é importante que o pai ocupe o lugar da autoridade incontestável. Cabe ao pai oferecer à criança, parâmetros claros; do contrário, a criança teria que administrar um poder grande demais para sua precária condição de escolha. Inevitavelmente usaria o poder delegado, mas talvez os resultados fossem imprudentes, indiscriminados, e talvez antisociais.

Não seria certo dizer que a mãe zela por limites, exceto se entendermos que ela lê os limites expressos pelo funcionamento organísmico da criança e toma providências para que as necessidades da criança sejam atendidas (identifica que a criança está com sono e a coloca para dormir). Já o pai impõe os limites que chegam de fora, quando aliado à mãe, isto é, quando conduz suas intervenções numa perspectiva de alteridade o pai transforma em Logos – abstrai e traduz em forma de lei – os limites naturais do ser humano, associando-os às necessidades que a criança experimenta como ser social e como elemento coletivo.

Sendo assim, toda relação entre bebê e cuidador, quando estruturada, será sentida como equilibrada e tranquila, caso contrário será dolorosa e insatisfatória. Vale a pena dizer que os relacionamentos iniciais são a base para uma estrutura emocional, e que as experiências vividas com seus cuidadores em relação à aproximação ou distanciamento podem ser entendidas como as mais significativas e responsáveis pela formação das estruturas infantis.

Com tudo isso já tendo sido discutido ao longo dos textos, devemos nos lembrar do papel da mãe, sua herança, etc. Desconfortos sociais serão suportados pela criança não só por recomendações de obediência por parte do pai, mas pelo fato de a criança estar apoiada no sentimento de segurança básica fundados na relação com a mãe. A experiência precoce de um amor genuíno leva a uma estrutura psíquica que é capaz de amar e, consequentemente, a criança estará apta a desenvolver seus componentes de relacionamentos ao lidar com a sociedade.

Pode-se concluir que é possível que o amor materno e o amor paterno sejam veiculados ao mesmo tempo, já que o pai pode estar presente e atuante desde o início da vida. Mas para que isso ocorra de maneira satisfatória é necessário que a mãe e o pai tenham condições de dar novo significado à própria noção de amor. Caso contrário, a presença desses dois “amores” distintos podem se manifestar de duas maneiras: sendo útil para favorecer o processo de diferenciação da criança, mas também gerando dúvidas e confusão – comprometendo a visão que a criança vai ter de homem e mulher, masculino e feminino. Em outras palavras: a criança pode ficar confusa em relação a sua própria identidade.

Na próxima coluna voltarei com outros assuntos… Até breve!

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Regiane L. C. Lopes é psicóloga, especializada em psicologia junguiana e psicologia hospitalar. Assina esta coluna quinzenalmente. Caso tenha sugestões, críticas ou perguntas, mande um e-mail para rcanoso@cienciadiaria.com.br.

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