Coluna de Psicologia – O pai e a mãe pessoal

Psicóloga Regiane Canoso fala sobre o encontro de desejos expressos em um filho e o papel que cada um desempenha da gravidez.

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08 Outubro 2010 | 15h48

Mãe, pai e filho, por Rudy Rotter.

Mãe, pai e filho, por Rudy Rotter.

Olá, hoje o texto vai abordar assuntos relacionados ao pai e a mãe pessoal. No texto anterior falei sobre os arquétipos, paterno e materno, tendo como propósito justamente evidenciar o lado psicológico desse homem e dessa mulher, evidenciando os arquétipos para que agora possamos entender o surgimento do desejo de ser pai e de ser mãe.

A gravidez é uma época fecunda em vários sentidos: não só um novo ser está sendo formado, mas também na mulher e no homem estão se consolidando novas partes – a capacidade de cuidar maternalmente e paternalmente de um ser. A gestação é confiada plenamente à mãe, portanto a criança que é apresentada ao pai é uma nova criança: para a mãe, a criança é a mesma que estava em sua barriga; para o pai, o esperma e o filho são duas coisas muito diferentes.

Um filho é, inicialmente, o desejo de um homem, o desejo de uma mulher e o encontro desses dois desejos. O terceiro desejo de vida vai se encarnar no corpo do filho. O projeto que nascerá deste encontro de desejos, conscientes ou não, marcará a origem do indivíduo e fará parte de sua pré-história. Assim, os pais são elementos importantes na constituição deste ser, e seus desejos e expectativas estão também presentes nas questões psicodinâmicas deste indivíduo.

Quando o indivíduo nasce, já existe um lugar pré-definido para ele ocupar; esse lugar é oferecido pelos pais e acatado pelo filho. Ao nascer o indivíduo compartilha com a totalidade dos seres humanos o potencial arquetípico inerente à espécie (formas básicas), mas sua constituição genética (manifestação individual) o diferencia e o torna único.

Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte ainda depende da vida psíquica dos pais”, assim se referia Jung.

Com isso, a psique infantil deve ser considerada apêndice funcional da psique dos pais, pois a individualidade psíquica só se desenvolve depois que se estabelece uma continuidade da consciência.

O fato de uma criança começar a falar de si mesma na terceira pessoa é, a meu ver, prova bem clara da impessoalidade de sua psicologia” (JUNG).

A primeira morada que a criança conhece é o útero materno, perfeitamente habitável e preparado para todas as suas necessidades. A segunda é o uróboro materno, o “útero” extra-corpóreo. Os fundamentos da ética estão no universo materno. Ao pai resta inicialmente construir e, mais tarde, prover condições, técnicas e valores espirituais que permitam à criança edificar, por si própria, a morada que vai abrigá-la ao longo de etapas posteriores do seu desenvolvimento.

A alma do recém-nascido não deve ser comparada a uma tabula rasa, como se não houvesse nada dentro. Na medida em que a criança vem ao mundo com um cérebro individualizado e único, responde a estímulos sensoriais externos, com predisposições específicas que condicionam seletividade e organização da percepção que lhes são próprias. A psique pré-consciente de um recém-nascido, não é de modo algum um nada no vazio, ao qual tudo pode ser ensinado. Pelo contrário: é uma condição prévia muito complicada e rigorosamente determinada para cada ser humano.

Irei abordar a tríade pai – mãe – filho como algo que pode ser atualizada constantemente por meio do afeto. Vou usar o termo “haptonomia”, fundado por Frans Veldman, para facilitar o entendimento de um assunto tão difícil. “Haptonomia” deve ser entendida como a capacidade que o afeto tem de estabelecer uma verdadeira relação interativa.     Este mecanismo tem como objetivo fazer com que o filho sinta que é acolhido, protegido e amado. Estas trocas precoces são muito preciosas por estreitar laços entre mãe e seu filho, mudando completamente a vivência da gestação ao lado do pai.

Por conta da “haptonomia” a gestação se transforma em uma verdadeira comunicação a três vozes, em que o filho e o pai podem igualmente se exprimir instintivamente. Assim, o filho reage à voz e entonação de seu pai com batimentos de seu coração, sendo esta capacidade desenvolvida e revelada pela “haptonomia”.

A noção de continência materna contrapõe-se à noção de referência paterna. O chão seguro para acolher e amparar a totalidade da criança não é mais o abrigo protetor expresso em forma de colo, mas sim os parâmetros dados pelo pai como modelos, padrões e recomendações de como ser. Antes, o filho da mãe era dispensado do compromisso de ser, pois a mãe toda doadora era por ele. Agora, o filho do pai deve seguir rigorosamente a prescrição paterna.

A mãe é de um filho só, de um filho por vez e de cada um dos filhos, pois reinventa a maternidade a partir do estímulo que cada filho traz para ela. O pai, ao contrário, é do grupo. É “tribal”. Desta forma, a mãe sacia a fome; o pai ensina o filho a vivenciar, lutar e com seus recursos suprir suas necessidades. 

O primeiro passo já está dado. Você, leitor, tem agora uma breve noção do pai e da mãe pessoal, do pai e da mãe do nosso dia-a-dia, do pai e mãe que somos ou um dia seremos e dos pais e mães que nos guiaram até aqui. Retomo ao mesmo assunto na próxima coluna. Até lá!

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Regiane Canoso é psicóloga e estreia sua coluna quinzenal no Ciência Diária a partir de hoje.Regiane L. C. Lopes é psicóloga, especializada em psicologia junguiana e psicologia hospitalar. Assina esta coluna quinzenalmente. Caso tenha sugestões, críticas ou perguntas, mande um e-mail para rcanoso@cienciadiaria.com.br.