Coluna de Psicologia – Recolhimento das projeções para a tomada de consciência

Psicóloga Regiane Canoso explica como a anima corresponde ao Eros materno e o animus corresponde ao Logos paterno.

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22 Agosto 2010 | 12h56

Olá, leitores da coluna de psicologia do site Ciência Diária! Vou terminar o texto sobre anima e animus, porém, sempre fica o lembrete: busquem maiores informações nas referências do próprio Jung. O assunto é muito extenso e vale a pena ser aprofundado. Texto da semana: anima corresponde ao Eros materno, animus corresponde ao Logos paterno.

Dentre os arquétipos anima e animus são dois investidos de grande significado, pois, pertencem, por um lado à personalidade e por outro se encontram enraizado no inconsciente coletivo. Ambos constroem uma espécie de elo ou ponte entre o pessoal e o impessoal, bem como o consciente e o inconsciente.

A autonomia do inconsciente coletivo se expressa nas figuras da anima e do animus. Eles personificam os seus conteúdos, os quais podem ser integrados à consciência, depois de retirados da projeção. Constituindo funções que transmitem conteúdos do inconsciente coletivo para consciência.

O processo gradativo do desenvolvimento espiritual significa ampliação da consciência. Consciência é sempre consciência do eu: para o indivíduo tornar-se consciente de si mesmo, deve primeiramente distinguir-se do outro. Desde o momento em que aparece a consciência coerente, existe a possibilidade do relacionamento psíquico. Mesmo assim, a consciência é cheia de lacunas, podendo permanecer inconscientes, regiões muito amplas da vida psíquica. É preciso esclarecer ainda que sempre que se fala em relacionamento psíquico, pressupõe-se consciência. “Não existe nenhum relacionamento psíquico entre dois seres humano, se ambos se encontrarem em estado inconsciente” (JUNG).

O recolhimento das projeções pode ser sofrido e não ocorre de uma hora para outra, mas é fundamental para o processo de tomada de consciência. 

A anima e o animus representam um mundo, que, de início é incompreensível ao seu oposto, um mundo que nunca pode ser conhecido diretamente. Embora cada indivíduo tenha dentro de si elementos do sexo oposto, seu campo de expressão é aquela área que é mais obscura, estranha, irracional e amedrontadora; na melhor das intenções, ela pode ser intuída e ”sentida”, mas nunca completamente compreendida. Esses arquétipos são contra-sexuais por expressarem o fato de que não há nada tão totalmente o “outro” como o sexo oposto.

A possessão provocada pela anima e pelo animus apresenta, entretanto outra imagem. Ao dar-se a transformação da personalidade, apresentam-se traços do sexo oposto: no homem, o feminino e, na mulher, o masculino. Quando possuídos tanto a anima quanto o animus perdem seus valores e seus encantos, que só possuem em estado de despreocupação em relação ao mundo, isto é, quando fazem uma ligação com o inconsciente.

A anima corresponde ao Eros materno, assim como o animus ao Logos paterno. Com isso, compreende-se que da mesma maneira que a anima se transforma em um Eros da consciência, mediante uma integração, o animus também se transforma em um Logos; da mesma forma que a anima imprime uma relação e uma polaridade na consciência do homem, o animus também apresenta um caráter meditativo, um talento de reflexão e conhecimento à consciência feminina.

Eros é uma força de ligação e união, age no sentido de unir o que desuniu ou manter unido o que assim já se encontrava. No uróboro primordial (nome atribuído ao símbolo da serpente que devora o próprio rabo, tomado como símbolo da unidade da infinitude), Eros já se encontra presente. Com o surgimento da consciência, há um relativo afastamento em relação à mãe. Efetuada a separação, o recurso psíquico sistematizador capaz de sustentar, estabilizar e conservar a continuidade da consciência é o Logos.“Logos é a personificação da inteligência divina: ele produz ordem no caos e ilumina toda criação com a luz da consciência”. (STEVENS)

Os termos Eros e Logos foram utilizados por Jung meramente como apoios conceituais para descrever o fato de que a consciência feminina se caracteriza mais pela qualidade conectiva do Eros do que pela discriminação e a cognição associada ao Logos.

O arquétipo anima e animus é um eterno desafio quanto a ser compreendido e domado. Quando pensamos que encontramos tudo o que há para ser encontrado, eles podem surgir sob formas novas e inesperadas, e isso nunca tem fim. Pode-se dizer que a anima e o animus é um oceano desconhecido. Os domínios do inconsciente não podem ser analisados de modo banal, não podem ser derrotados, mas, na melhor das hipóteses, por meio do confronto consciente, podem ser considerados dentro dos limites da capacidade individual da pessoa.

Caros leitores, vocês que estão lendo a coluna pela primeira vez e vocês que estão acompanhando quinzenalmente, não se preocupem se o assunto sobre anima e animus, ficou confuso, foi difícil a compreensão o entendimento, etc. O próprio Jung reconhece a dificuldade de esclarecer os conceitos de anima e animus, relatando que: “Se não é simples expôr o que se deve entender por anima, é quase insuperável a dificuldade de tentar descrever a psicologia do animus” (JUNG). Para finalizar, vou sintetizar o assunto, fazendo uma ligação geral nos conceitos de Anima e Animus. Caso tenham dúvidas entrem em contato, enviem seus comentários, terei o maior prazer em respondê-los.

Vamos lá:

Anima
O inconsciente representado pela anima é fator determinante de projeções, ela aparece personificada, manifestando-se: nos sonhos, fantasias e visões.

A anima se mostra possuidora de todas as qualidades e características de um ser feminino, mas é um arquétipo que se manifesta no homem, sendo este homem compensado por este feminino.

O componente feminino existente na personalidade do homem é anima, “há uma imagem coletiva da mulher no inconsciente do homem, como o auxilio da qual ele pode compreender a natureza da mulher”. (JUNG).

A anima é algo que vive por si mesma e que nos faz viver; é uma vida por trás da consciência, que nela não pode ser completamente integrada, mas da qual – pelo contrário – desta última emerge. A anima é, de fato, o arquétipo da própria vida… A anima que expressa a vida

A anima, por representar a existência psíquica irracional anterior à consciência, consiste em ímpetos e impulsos a priori que não são criados pela consciência, mas que são as pré-condições para a consciência, através da qual a consciência é secretamente alimentada e da qual ela vive sob a ilusão de ser capaz de libertar-se.

Um ser que tem alma é um ser vivo, a alma é o que vive no homem, sendo assim aquilo que vive por si só é capaz de gerar vida.

Anima como imagem afetiva espontaneamente produzida pela psique objetiva, representa o feminino eterno em suas mais amplas potencialidades, seu núcleo arquetípico contém muito mais do que jamais poderá ser constelado por qualquer mãe real. Como padrão de emoção, consiste nos anseios inconscientes do homem, seus estados de espírito, ansiedades, medos, inflações e depressões, assim como seu potencial de emoção no relacionamento. Já como padrão de comportamento, ela representa os elementos impulsivos relacionados à vida como vida, como um fenômeno não premeditado, mas sim, natural e espontâneo, à vida dos instintos, à vida da carne, à vida da concretude, da terra, da emotividade, dirigida para as pessoas para as coisas.

Esses padrões de emoção e de comportamento são inconscientes, não podendo ser inteiramente percebidos de modo consciente, mas ao mesmo tempo exigem que os percebamos e confrontemos. O processo de conscientização da anima, constitui um meio indispensável de abordagem da dimensão não-pessoal da psique objetiva. O homem para torna-se uma pessoa completa, e não um mero número no contexto social, ou às vezes agarrar-se a sua masculinidade deve confrontar sua anima e estabelecer com ela um relacionamento vivo e crescente. Mas esse confronto requer consciência da natureza de suas expectativas autônomas e padrões de resposta pessoais. A anima constitui um problema para o mundo em geral assim como para o indivíduo.

O medo da anima conduziu, histórica e coletivamente, à degradação das mulheres. Hoje, esse medo se exprime na masculinização do mundo e na depreciação do feminino que é exclusivamente definido em termos de maternidade e serviços domésticos e, portanto, no declínio da verdadeira autoestima da mulher, e não como imitadora do funcionamento do homem.

AnimusO animus componente masculino na personalidade da mulher.

Animus núcleo do inconsciente da alma feminina fator gerador de projeções na mulher que significa “espírito ou mente”, por isso mesmo, via de acesso aos conteúdos mais profundos e desconhecidos da psique feminina.

O animus representa sistemas de avaliação que nunca foram confrontados pela consciência. O conceito do animus descreve os aspectos de uma mulher que são os meios pelos quais os julgamentos são formados – “padrões que ela simplesmente aceita como verdadeiros, que nem mesmo sabe que são padrões; eles parecem ser fatos óbvios para todo mundo”.

Quando projetado, o animus explica as profundas e irrealistas fascinações da mulher, ou ela está apaixonada, ou ela odeia e rejeita violentamente o homem. Entretanto, as projeções do animus são inevitáveis, elas dão o primeiro passo e formam a base para que o relacionamento possa ser construído, claro que para isso ocorrer elas precisam ser vistas e reconhecidas. Se a projeção persiste, é provável que a expectativa idealizadora impeça o relacionamento real.

Assim como a anima, o animus também tem um aspecto positivo. Sob a forma de pai expressam-se não somente opiniões tradicionais, mas também aquilo que se chama “espírito” e de modo particular certa concepções filosóficas e religiosas universais, ou seja, aquela atitude que resulta de tais convicções. Assim o animus é também um psicopompo um guia entre consciente e inconsciente e uma personificação do segundo.

Assim como o homem encontra acesso à psique objetiva através da anima, que tem que ver com o mundo dos relacionamentos pessoais, a mulher também descobrirá que para ela ter acesso ao seu inconsciente e contato com seu Self feminino, ela terá que confrontar o mundo agressivo que o animus representa.

Sem integrar conscientemente um pouco de agressividade, positividade, raciocínio e transformá-lo em seu próprio, a mulher não pode se tornar um indivíduo realizado. Permanecer presa na figura da dona-de-casa materna, bondosa e amorosa incapaz de pensar por si própria significa a morte da sua personalidade real, quando conscientemente o animus é confrontado ele torna-se um guia para o autodesenvolvimento – em vez de ficar na defensiva.

A próxima coluna vai tratar sobre arquétipos. Até lá!


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Regiane Canoso é psicóloga e estreia sua coluna quinzenal no Ciência Diária a partir de hoje.Regiane L. C. Lopes é psicóloga, especializada em psicologia junguiana e psicologia hospitalar. Assina esta coluna quinzenalmente. Caso tenha sugestões, críticas ou perguntas, mande um e-mail para rcanoso@cienciadiaria.com.br