Comunicação de hipocampo e córtex pré-frontal é afetada na esquizofrenia

Mutação parece comprometer memória de trabalho em função de falha na troca de informações entre diferentes áreas do cérebro.

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01 Abril 2010 | 13h20

Mutação pode levar à falha em comunicação entre diferentes partes do cérebro em pessoas com esquizofrenia.

Mutação pode levar à falha em comunicação entre diferentes partes do cérebro em pessoas com esquizofrenia.

Pesquisadores do Columbia University Medical Center mostram que uma variante pode levar à esquizofrenia, causando uma interrupção na comunicação entre as regiões do hipocampo e do córtex pré-frontal no cérebro, áreas responsáveis pela realização de trabalho e memória. A descoberta coincide com o 15º aniversário da primeira identificação da relação entre esquizofrenia e uma mutação genética – uma microdeleção no cromossomo 22 – conhecida como exclusão 22q11. Estudos anteriores demonstraram que aproximadamente 30% dos pacientes com essa falha desenvolvem esquizofrenia.

A esquizofrenia é um transtorno mental grave, cujos sintomas mais conhecidos são delírios e alucinações. No entanto, são as capacidades cognitivas (como a memória, um elemento-chave na execução de várias funções) que melhor definem se uma pessoa é “normal” para a nossa sociedade. Justamente esse fator foi analisado pelos pesquisadores em uma série de experimentos com ratos.

Atividade neural de um rato esquizofrênico


Para a pesquisa, a equipe de Joshua Gordon e Joseph Gogos utilizou um modelo de ratos com a deleção no 22q11. Os animais realizaram testes cognitivos para que os pesquisadores pudessem, através do registro das atividades neurais, avaliar a memória de trabalho. Os resultados mostram que em ratos saudáveis o hipocampo manda informação especial para o córtex pré-frontal, mas no modelo de roedores com mutação há uma falha na conexão – tornando-a fraca ou completamente inativa.

Como parte do processo cognitivo, os ratos foram testados enquanto caminhavam em um labirinto em forma de T: eles deveriam lembrar a direção a tomar para depois optar por seguir na direção oposta, recebendo uma recompensa. Embora os ratos saudáveis rapidamente tenham aprendido a tarefa, os ratos que tinham a mutação da esquizofrenia levaram mais tempo para dominar o exercício, demonstrando um déficit comportamental. “Nós descobrimos que a conclusão da tarefa pelos ratos saudáveis precisou de duas regiões do cérebro – o hipocampo e o córtex pré-frontal – trabalhando juntas, e no modelo de rato para esquizofrenia a transferência de informações foi menos eficiente ou inexistente”, explica Gordon.

“Houve uma variação na quantidade de uns déficits entre os ratos, e isso está relacionado ao grau de déficit comportamental, de forma que para ratos com menos comunicação entre as duas estruturas, houve mais déficit comportamental”, ressalta Torfi Sigurdsson.  Estudos com pessoas utilizando imagens sugerem a possibilidade de que haja anormalidades na conectividade funcional entre o hipocampo e o córtex pré-frontal na esquizofrenia. Contudo, ainda não se sabe como isso pode causar a doença, com a de uma variante genética de risco, se eram resultado da doença apenas ou da medicação usada. “Aqui estamos no nível de células individuais, então nossas descobertas vão além dos estudos com pacientes, mostrando como uma conectividade corrompida pode chegar ao nível dos neurônios individuais, como o resultado de uma variante genética de risco”, explica Sigurdsson.

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