Controle do glutamato no cérebro pode evitar danos de derrame

Boa parte do estrago causado por um derrame ou trauma na cabeça é resultado da superprodução de glutamato no cérebro.

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08 Fevereiro 2011 | 15h14

Boa parte do estrago causado por um derrame ou trauma na cabeça é resultado da superprodução de uma substância no cérebro chamada glutamato. Prevenir o dano era algo impossível até agora, já que a maioria das drogas não atravessa a dita barreira encéfalo-sanguínea – e as que conseguem fazer isso não funcionam como o desejado. Mas, um método originalmente desenvolvido por pesquisadores do Weizmann Institute of Science pode, futuramente, oferece um meio de evitar danos induzidos pelo glutamato.

Uma equipe do instituto já havia demonstrado em 2003 uma maneira de driblar o problema. O glutamato – um neurotransmissor de curta duração – normalmente é praticamente ausente nos fluídos do cérebro, mas, após um acidente vascular ou lesão, seus níveis sobem drasticamente de forma a excitar demais as células. Resultado: as células morrem. Em vez de pensar em termos de medicamentos, Vivian I. Teichberg, do departamento de neurobiologia do Weizmann, propôs um modelo para “expulsar” o glutamato do cérebro para o sangue através de transportadores nos capilares que funcionam com diferentes níveis da substância em ambos os sentidos.

A diminuição do glutamato no sangue induziria um impulso forte que jogaria a substância fora do cérebro. Então, ela pensou que uma enzima encontrada naturalmente no corpo chamada glutamato-oxaloacetato transaminase (GOT) poderia limpar o glutamato no sangue, diminuindo significativamente os seus níveis. Em 2007, pesquisadores descobriram um indício claro da neuroproteção cerebral oferecida pela oxaloacetate (substância muito semelhante ao GOT) em ratos que sofreram traumatismo craniano.

Agora, dois novos estudos conduzidos por Fransisco Campos e outros pesquisadores do laboratório de Jose Castillo, na Universidade de Compostela, na Espanha, fornecem mais uma prova de que a ideia de Vivian pode estar correta. No primeiro, cientistas mostraram que a oxaloacetate reduz os danos causados por derrames ao reduzir os níveis de glutamato no sangue e na região afetada. No segundo, uma equipe de neurologistas de dois hospitais conferiram os níveis de glutamato e GOT em centenas de vítimas de derrame, descobrindo que o preditor mais importante de prognóstico (ou seja, o que indica o quanto o cérebro foi danificado) era o nível destas duas substâncias. Níveis altos de glutamato foram associados a um prognóstico pobre, e altos níveis de GOT foram relacionados a uma probabilidade maior de recuperação.

Os estudos fornecem não apenas uma nova abordagem para o desenvolvimento de terapias para tratar pacientes que sofreram derrame, como dão novas perspectivas para o entendimento de outras doenças caracterizadas pelo acúmulo de glutamato no cérebro, incluindo Alzheimer, Parkinson, esclerose múltipla, epilepsia, glaucoma, tumores cerebrais e esclerose lateral amiotrófica.