Ausência de filhos é "compensada" por cuidado extra com sobrinhos

Altruísmo é o benefício indireto de homossexuais para aumentar perspectivas de sobrevivência de parentes próximos.

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05 Fevereiro 2010 | 17h41

Em samoa, os fa'afafine compõem um terceiro gênero: são biologicamente homens que na infância optaram por assumir papéis femininos.

Em samoa, os fa'afafine compõem um terceiro gênero: são biologicamente homens que na infância optaram por assumir papéis femininos.

A homossexualidade masculina não faz sentido algum, do ponto de vista evolutivo. Mesmo que o “traço” parece ser hereditário, homossexuais não estão propensos a produzir descendentes, e um possível gene teria sido extinto há tempos. Que valor essa orientação sexual poderia ter para perdurar por tanto tempo, mesmo sem qualquer vantagem reprodutiva visível?

Uma possível explicação é o que os psicólogos evolucionistas chama de “hipótese de seleção do parentesco”. Significa que os homossexuais podem transmitir um benefício indireto ao aumentar as perspectivas de sobrevivência de parentes próximos. Especificamente, a teoria sustenta que os homossexuais podem melhorar as suas próprias perspectivas genéticas ao se transformarem em “ajudantes do ninho”. Agindo de forma altruísta com sobrinhos e sobrinhas, os homossexuais perpetuariam os genes da família – inclusive os seus.

Dois psicólogos evolucionistas, Paul Vasey e Doug VanderLaan, da Universidade de Lethbridge, no Canadá, testaram essa ideia por alguns anos na ilha de Samoa, no Pacífico. Samoa foi escolhida porque os homens que preferem homens são aceitos pela comunidade como um gênero distinto, chamado fa’afafine: nem homem, nem mulher. Os fa’afafine tendem a ser afeminados, e atraídos sexualmente apenas por homens adultos. Esta demarcação clara torna mais fácil a identificação para uma amostra do estudo.

A pesquisa mostrou que os fa’afafine são muito mais inclinados ao altruísmo em relação a seus sobrinhos e sobrinhas do que qualquer mulher ou homem heterossexual. Estão dispostos a atuar como babás, tutores na arte e na música, ajudam financeiramente os cuidados médicos e educação dos menores, entre outras coisas. Em um novo estudo, os cientistas se propuseram a observar se o altruísmo estaria direcionado apenas aos parentes, ou a crianças em geral.

Eles recrutaram vários fa’afafine e a mesma proporção de homens e mulheres heterossexuais. Deram a todos uma série de questionários, “medindo” a vontade que eles tinham em ajudar os sobrinhos e sobrinhas de várias formas: guarda, presentes, educação. Também avaliaram esta predisposição para outras crianças que não eram da família. Os resultados mostraram que os fa’afafine tendem a alocar recursos de forma mais eficiente e precisa para seus parentes, melhorando suas perspectivas de evolução.

Para “compensar” o fato de não terem filhos, cada fa’afafine teria, de alguma forma, dar apoio a pelo menos duas sobrinhas ou sobrinhos – como se “anulasse” a ausência de filhos. “Se a seleção de parentesco é o único mecanismo pelo qual os genes de pessoas do mesmo sexo podem ser mantidos ao longo do tempo, os fa’afafine devem ser supertios para se manterem no processo evolutivo”, explica Vasey.

Estes resultados teriam significado fora de Samoa? Sim e não. A cultura em Samoa é muito diferente da maioria das culturas ocidentais – localizada e centrada em vínculos familiares fortes, com muitos parentes, ao passo que as sociedades ocidentais tendem a ser bem mais individualistas e homofóbicas. As famílias também são mais dispersas geograficamente, diminuindo o papel que os tios homossexuais poderiam desempenhar – mesmo se escolhessem agir como tutores.

Mesmo assim, afirmam os pesquisadores, Samoa pode ser um bom exemplo de como a sexualidade evoluiu antes. Daquele ponto de vista, o tio solteirão não é a ovelha negra da família: o mundo ocidental moderno apenas se tornou um lugar mais hostil.

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