Autismo pode mudar a estrutura molecular do cérebro

Pesquisa consegue demonstrar pela primeira vez como cérebro de pessoas com autismo se diferencia radicalmente de cérebro de pessoas saudáveis.

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25 Maio 2011 | 15h23

Cientistas mediram os níveis de expressão de mais de 20 mil genes para tentar compreender melhor a origem do autismo. Crédito: Geschwind lab.

Cientistas mediram os níveis de expressão de mais de 20 mil genes para tentar compreender melhor a origem do autismo. Crédito: Geschwind lab.

Durante décadas pesquisadores enfrentaram um desconcertante enigma em relação ao autismo: como desvendar uma doença que não deixa vestígios físicos enquanto se desenvolve no cérebro? Agora, um estudo liderado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles, nos EUA, revela pela primeira vez que a doença deixa, sim, sua marca em nível molecular – fazendo com que o cérebro autista se diferencie radicalmente da estrutura de um cérebro saudável.

O estudo, publicado hoje na Nature online, oferece uma nova visão sobre como genes e proteínas são capazes de alterar a mente. A descoberta também identifica uma nova linha de “ataque” para os pesquisadores, que atualmente encaram um vasto leque de frentes possíveis para combater a doença e encontrar suas causas.

“Se você escolher aleatoriamente 20 pessoas com autismo, a causa de cada pessoa com a doença será única”, explica o principal pesquisador do trabalho, Daniel Geschwind, professor de neurologia e psiquiatria da David Geffen School of Medicine na UCLA. “No entanto, quando examinamos como os genes e proteínas interagem no cérebro de pessoas com autismo, vimos padrões compartilhados bem definidos. Este segmento comum poderia ser a chave para localizar a origem do distúrbio”.

A equipe, composta também por cientistas da Universidade de Toronto, no Canadá, e King’s College, no Reino Unido, comparou amostras de tecido cerebral obtidos após a morte de 19 paciente com autismo e 17 voluntários saudáveis. Depois de avaliar três perfis de áreas cerebrais anteriormente relacionadas ao autismo, o grupo focou no córtex cerebral – a parte mais evoluída no cérebro humano -, centrando-se na expressão de genes (responsáveis, em primeira instância, pela síntese das proteínas).

Os resultados mostram diferenças consistentes na forma como genes de cérebros ‘autistas’ e ‘saudáveis’ codificam informações. “Ficamos surpresos ao ver padrões de expressão gênica similares na maior parte dos cérebros de autistas que estudamos”, disse Irina Voineagu, primeira autora do artigo. “Do ponto de vista molecular, metade desses cérebros partilha uma assinatura genética comum”.

O passo seguinte foi identificar os padrões comuns. Para isso, os pesquisadores analisaram o lobo frontal do córtex cerebral, que desempenha um papel importante nas decisões, criatividade, emoções e fala. Além disso, observaram também o lobo temporal, que regula a audição, linguagem, processamento e interpretação de sons.  Mais de 500 genes foram expressos em diferentes níveis nas duas regiões e em cérebros de autistas estas diferenças eram praticamente inexistentes.

“Em um cérebro saudável, centenas de genes se comportam de maneira diferente em cada região, e os lobos frontais e temporais são facilmente distinguíveis”, explica Geschwind. “Não vimos isso no cérebro autista: em vez disso, o lobo frontal se assemelha ao lobo temporal”.

Dois outros padrões importantes foram identificados pelos cientistas: primeiro, o cérebro de uma pessoa autista mostra uma queda nos níveis de genes responsáveis por funções neurais e da comunicação; em segundo, o cérebro autista exibe um salto nos níveis de genes envolvidos na função imunológica e na resposta inflamatória.

“Vários dos genes que surgiram nesses padrões compartilhados foram previamente associados ao autismo”, diz Geschwind. “Ao demonstrar que esta patologia é transmitida dos genes para o RNA e então para as proteínas celulares, fornecemos a evidência de que as alterações moleculares comuns em função dos neurônios e comunicação são uma causa – e não um efeito – da doença”.

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