Identificado gene que regula morte programada de células-tronco

Grandes quantidades ou vida muito longa de células-tronco do corpo podem aumentar as chances de uma pessoa desenvolver o câncer

root

14 Outubro 2010 | 22h37

Cientistas descobriram um gene sem o qual células-tronco de ratos vivem por muito tempo. Camundongos sem o gene SEPT4 desenvolveram câncer em seus baços (direita). Crédito: The Rockefeller University.

Cientistas descobriram um gene sem o qual células-tronco de ratos vivem por muito tempo. Camundongos sem o gene SEPT4 desenvolveram câncer em seus baços (direita). Crédito: The Rockefeller University.

Uma pesquisa da Universidade Rockefeller, nos EUA, mostra que grandes quantidades ou vida muito longa de células-tronco do corpo podem aumentar as chances de uma pessoa desenvolver o câncer. Ao identificar um mecanismo que regula a morte celular programada em células precursoras do sangue (ou células-tronco hematopoéticas) de ratos, pesquisadores observaram o lado potencialmente carcinogênico de tratamentos com células-tronco, sugerindo que o desequilíbrio firmado com o intuito de regenerar partes do corpo pode, em longo prazo, ter efeitos letais.

Para chegar a estas conclusões, a equipe explorou a atividade de um gene – o SEPT4 -, que codifica a proteína ARTS. Esta, por sua vez, acelera a morte celular programada (ou apoptose) ao agir contra outras proteínas que impedem o processo de destruição. Originalmente identificada pelo pesquisador Sarit Larisch, a proteína ARTS pode estar envolvida em casos de leucemia e outros cânceres, quando está em falta. Seguindo o raciocínio, o time então passou a trabalhar com ratos geneticamente modificados para a deficiência do gene SEPT4.

Durante muitos anos, Maria Garcia-Fernandez, responsável pelo trabalho, estudou células em que ocorria uma deficiência da proteína ARTS, procurando sinais de problemas associados à apoptose. Não encontrou nenhum problema em células T e células B maduras. Contudo, ao observar para estas mesmas células nos primeiros estágios de desenvolvimento, chegando finalmente a células progenitores e células-tronco, observou diferenças cruciais.

Roedores recém-nascidos com deficiência da proteína ARTS tinham cerca do dobro de células-tronco hematopoéticas do que outros roedores dotados com ARTS. Consequentemente, suas células-tronco tinham uma extraordinária capacidade de sobrevivência mesmo diante de mutações induzidas experimentalmente.

“O aumento no número de células progenitoras hematopoéticas e células-tronco deficientes em gene SEPT4 em ratos traz a possibilidade de acelerar a acumulação de mutações em células-tronco”, explica Maria. “Eles têm mais células-tronco com maior resistência à apoptose. No fim das contas, isso leva a acumulação de células mutantes que não podem ser eliminadas”.

Como era de se supor, os camundongos privados da proteína ARTS desenvolveram tumores espontâneos duas vezes mais do que os demais ratos. “Nós fazemos uma relação entre apoptose, células-tronco e câncer que não tinha sido feita desta maneira antes: esta via é extremamente importante na morte das células-tronco e na redução do risco de um tumor”, explica Herman Steller, membro do Howard Hughes Medical Institute.

De acordo com a equipe, os resultados confirmam que as células-tronco são as sementes de tumores, e que a transição de uma célula-tronco normal para uma célula-tronco cancerosa envolve o aumento da resistência à apoptose. A proteína ARTS interfere nas moléculas de proteínas conhecidas como inibidoras de apoptose, que impedem a morte celular. As observações sugerem que o silenciamento prematuro do gene SEPT4 poderia ser um indicativo para um futuro câncer.

“Este trabalho não só define o papel do gene ARTS no mecanismo de resistência ao tumor em células de mamíferos e morte celular programada, mas também estabelece as ligações deste gene para outra característica base do cancro, a proliferação de células progenitoras”, ressalta Marion Zatz, que estuda as condições de morte celular. “A identificação do gene e seu papel na morte da célula cancerosa oferece um alvo potencial para novas abordagens terapêuticas”.

Um artigo sobre a pesquisa será publicada amanhã na Genes and Development.

Veja também:

Câncer: células mudam perfil genético de acordo com o ambiente
Ablação por laser guiado por ressonância é promessa contra tumores
Encontrado novos caminhos de regeneração da medula espinhal