Pesquisadores usam escorpião brasileiro para entender pancreatite

Veneno do Tityus serrulatus mostra como certas células liberam componentes críticos produzindo inflamação do pâncreas.

root

30 Março 2010 | 11h00

Veneno do escorpião Tityus serrulatus causa pancreatite em suas vítimas.

Veneno do escorpião Tityus serrulatus causa pancreatite em suas vítimas.

Pesquisadores dos Estados Unidos usaram um escorpião brasileiro – o Tityus serrulatus – para entender melhor o que ocorre no organismo de uma pessoa com pancreatite, uma inflamação do pâncreas que pode ser ocasionada pela picada do animal. O veneno deste aracnídeo dá pistas de como certas células liberam componentes críticos, já que um sistema de produção de proteína do pâncreas parece ser orientado por ele.

“Esse sistema partícula de proteína enfatiza principalmente dois lugares do corpo: o pâncreas e o sistema nervoso”, diz Keith Weninger, da Universidade da Carolina do Norte. “No pâncreas, ele está envolvido na liberação de proteínas através da membrana celular”.

O pâncreas é especializado na liberação de dois tipos de proteínas, utilizando células distintas: as enzimas digestivas, que vão para o intestino delgado, e a insulina e seus familiares que entram na corrente sanguínea. As células movem componentes de entrada e saída através de um processo chamado fusão das vesículas.


A vesícula é uma pequena câmara, parecida com uma bolha, que fica no interior das células e contém substâncias a serem transportadas, armazenadas e liberadas (nesse caso as proteínas, como enzimas ou hormônios). Ela se move dentro da célula e se fixa na membrana exterior, onde age como uma câmara de vácuo em uma nave espacial – permitindo que a membrana celular abra e libere proteínas sem alterar o resto do conteúdo da célula. As proteínas que ajudam nesse processo são conhecidas como proteínas associadas à membrana vesicular.

Weninger forneceu duas proteínas diferentes VAMP encontradas no pâncreas: a VAMP 2 e a VAMP8. Elas foram projetadas para remover os anexos da membrana para que pudessem ser mais facilmente utilizadas nas experiências fora das células ou tecidos. Uma equipe comandada por Paul Fletcher, da Universidade da Carolina do Leste, por sua vez, demonstrou que o veneno do escorpião atacou as proteínas VAMP, cortando-as em um lugar e eliminando a capacidade da vesícula de transportar o conteúdo da proteína para fora da célula.

“Descobrimos que uma enzima específica no veneno do escorpião remove o peptídeo, ou pequena proteína, que permite à vesícula se fundir com a membrana celular”, diz Fletcher. “Se você remove a capacidade de uma célula do pâncreas de absorver ou liberar componentes, você acaba com a pancreatite”.

“As viroses frequentemente exploram o mesmo mecanismo de fusão das vesículas, mas no sentido inverso, com o intuito de invadir células e se reproduzir”, acrescenta Weninger. “Esse trabalho possibilita a compreensão de um processo celular básico, e pode levar ao tratamento para viroses e avanços de tratamentos como a quimioterapia, permitindo a entrega de uma droga dirigida apenas às células cancerosas”.

Veja também:

Câncer de pâncreas: composto com quimio pode ser arma potente
Equipe explora imunomoduladores naturais que atuam no diabetes 1
Sistema de pâncreas artificial pode controlar riscos de hipoglicemia