Equipe descobre uma "tática do câncer" para se espalhar pelo corpo

Células se unem para formar "barquinhos movidos a remo". Mecanismo pode ser alvo de novos medicamentos para conter metástase.

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20 Julho 2010 | 14h18

Quando as células se unem para formar este “barco”, o contato entre elas inibe a formação dos remos no centro. As saliências são formadas apenas nas bordas do agrupamento, permitindo que o grupo se mova em uma direção específica. Crédito: UCL.

Quando as células se unem para formar este “barco”, o contato entre elas inibe a formação dos remos no centro. As saliências são formadas apenas nas bordas do agrupamento, permitindo que o grupo se mova em uma direção específica. Crédito: UCL.

O mecanismo que uma célula usa para se juntar a outras células e se mover pelo corpo foi identificado por cientistas da Universidade College London, no Reino Unido. A descoberta pode levar ao desenvolvimento de novos tratamentos para o câncer.

O estudo, que utilizou células embrionárias, aponta para uma nova abordagem contra a doença – orientada para o processo de agrupamento de células cancerosas. O objetivo é parar o avanço das mesmas no corpo e impedir a formação de tumores secundários.

Para que as células migrem, saliências são formadas – como tentáculos ou remos de um barco -, permitindo que elas se desloquem para outro lugar. Contudo, se uma única célula é isolada, a formação destas saliências ocorre em todas as direções. Resultado: a célula acaba por remar em círculos. Ela precisa das demais para dar a direção e a partida do barco.

O que os pesquisadores descobriram é que quando as células se unem para formar este “barco”, o contato entre elas inibe a formação dos remos no centro. As saliências são formadas apenas nas bordas do agrupamento, permitindo que o grupo se mova em uma direção específica.

“Ser capaz de formar um grupo de células vizinhas é vantajoso para a migração de células embrionárias”, ressalta Roberto Mayor, principal autor da pesquisa e pesquisador da UCL. Da mesma forma, células cancerosas adquirem a força pela união na metástase (quando algumas células de um tumor original migram para outras partes do corpo, formando tumores secundários). No futuro, o mecanismo poderia ser alvo de novos medicamentos, focados no processo de união e movimento destes agrupamentos.

As experiências foram realizadas com células da crista neural, encontradas durante o desenvolvimento do sistema nervoso central em embriões. Estas células podem se transformar em diferentes tipos de células, incluindo células do coração, rosto, pele e células musculares. Ao bloquear moléculas de suas superfícies, feitas de uma proteínas chamadas caderina N,  poder de se agruparem foi perdido – bem como a capacidade de se movimentar pelo corpo. A equipe acredita que a inibição da caderina N tenha o mesmo efeito em células de câncer, já que elas também se deslocam pelo corpo em grupos durante a metástase.

O estudo foi publicado hoje na revista Developmental Cell.

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