Genoma de ave mostra que cantar pode ser algo bastante complexo

Processo de escutar e imitar o pai está relacionado a um sofisticado sistema do cérebro para fazer com que o macho enfim aprenda a canção.

root

31 Março 2010 | 17h11

O mandarim foi o primeiro pássaro que canta a ter seu genoma decodificado. A primeira ave foi a galinha. Crédito: L. Brian Stauffer, University of Illinois News Bureau.

O mandarim foi o primeiro pássaro que canta a ter seu genoma decodificado. A primeira ave foi a galinha. Crédito: L. Brian Stauffer, University of Illinois News Bureau.

Andar é instintivo, correr é instintivo, sobreviver é instintivo. Mas, produzir som pode ser algo um pouco mais complexo. Pássaros que acabam de nascer devem aprender a cantar, exatamente como bebês que devem aprender a falar. E o processo de escutar e imitar o pai está relacionado a um grande e sofisticado sistema do cérebro para fazer com que o macho enfim aprenda a canção, e saiba fazer a serenata que chama a parceira até o fim da vida. É o que mostra uma equipe internacional liderada por pesquisadores da Washington University School of Medicine em St. Louis, nos EUA, que acaba de decodificar o genoma do mandarim da Austrália, revelando intrigantes informações sobre a base genética e a evolução da aprendizagem vocal.

O novo trabalho fornece insights para ajudar cientistas a entenderem como homens aprendem a falar. Também ajuda futuros estudos que buscam identificar a origem genética e molecular das desordens da fala, presentes no autismo, derrame, gagueira e mal de Parkinson.“Agora podemos olhar mais a fundo no genoma, não apenas vendo como os genes estão envolvidos no aprendizado vocal, mas vendo as complexas formas pelas quais eles se regulam”, explica o autor sênior da pesquisa, Richard K. Wilson. “Há muitos graus de complexidade que estamos começando a ver. Essa informação fornece pistas sobre como a aprendizagem vocal acontece no nível molecular mais básico, tanto em aves como em pessoas”.

Embora outros animais também aprendam a se comunicar, como morcegos e baleias, os mandarins são um ótimo modelo de estudo por aprenderem a cantar de uma forma previsível. Além disso, conservam alguns genes similares aos dos seres humanos. “O genoma do mandarim será uma ferramenta valiosa para os neurocientistas”, afirma Wes Warren, um dos autores do trabalho. “Eles podem agora realizar estudos para identificar um conjunto de genes no cérebro envolvidos no processo de cantar e escutar uma canção e, em seguida, analisar se algum desses genes está alterado em pessoas com distúrbios da fala”.

Em sua pesquisa sobre o genoma do mandarim, a equipe demonstrou que o ato de cantar ou ouvir uma música ativa complexas redes no cérebro dos pássaros. Pesquisas anteriores demonstraram que centenas de genes se ativam quando a ave aprende a cantar. Agora que os pesquisadores observaram o genoma inteiro, puderam ver que centenas de outros genes (aproximadamente 800) também estão associados ao “do ré mi”. Mais: os pesquisadores constataram que muitos genes relacionados ao canto não funcionam como genes, no sentido literal de codificação de proteínas. O DNA desses genes é transcrito em trechos curtos de RNA não-codificante que controla a expressão de outros genes do cérebro do mandarim envolvidos na comunicação vocal. Dos genes suprimidos após o ato de ouvir uma canção, dois terços são RNAs não-codificantes, conhecidos pelo papel-chave nos processos de desenvolvimento de seres humanos e animais. Eles também podem atuar na evolução de organismos superiores.

“Porque o aprendizado vocal é encontrado em alguns dos mais complexos organismos, os RNAs não-codificantes podem ser uma força motriz para o fenômeno”, diz Warren.

Veja também:

Mutações em genes podem explicar gagueira persistente em adultos
Personalidade e envelhecimento cerebral podem dar pistas sobre demência
Genoma de homem já extinto é sequenciado em detalhes
Respiração de jacaré e ave explica predominância dos arcossauros