Goodyear é o inventor da vulcanização? Tem gente que discorda

Antigos mesoamericanos já haviam aperfeiçoado o processamento químico da borracha há mais de três mil anos.

taniager

04 Junho 2010 | 03h35

Processamento químico da borracha já era feito por mesoamericanos antigos há mais de três mil anos atrás. Crédito: cortesia do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT).

Oferenda de bolas de borracha ao deus asteca, Xiuhtecuhtli, um dos nove Senhores da Noite. Crédito: cortesia do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT).

Em estudo recente, pesquisadores do MIT (sigla em inglês para Instituto Tecnológico de Massachusetts) descobriram que povos antigos mesoamericanos já haviam aperfeiçoado o processamento químico da borracha há mais de três mil anos. Dependendo da finalidade de sua utilização, a borracha era fundida com a proporção adequada de sumo da trepadeira Ipomoea, cuja flor é vulgarmente conhecida como “campainha”, “glória da manhã”, “bom-dia” entre outros nomes. O achado é tão surpreendente quanto foi para aqueles exploradores espanhóis quando viram a borracha pela primeira vez no continente recém descoberto. A pesquisa foi publicada ontem pelo instituto.

Conforme a pesquisa de Dorothy Hosler e Michael Tarkanian, esses povos conferiam diferentes propriedades à borracha variando os dois ingredientes básicos – o látex colhido nas árvores e o sumo da trepadeira glória-da-manhã – no cozimento. Para a sola de sandálias, faziam uma versão forte, resistente ao desgaste. Para as bolas de borracha usadas nos jogos cerimoniais, eles fabricavam uma borracha com maior elasticidade. E para alças de utensílios e adesivos, produziam borracha ainda mais forte e resistente.

Algumas bolas de diferentes tamanhos foram encontradas no sítio arqueológico na região, e a bola mais antiga é de 1600 AC. Mas as sandálias com sola de borracha nunca foram encontradas. Porém há menções sobre elas nos relatórios dos exploradores espanhóis e missionários, e provas lingüísticas em termo usado pelos astecas que mescla as palavras “borracha” e “sandálias”.

O teste de resistência

Os pesquisadores não puderam testar as propriedades mecânicas dos materiais de borracha coletados, pois estavam muito degradados. Eles deram a volta por cima ao recolher as matérias primas no local e fabricar diferentes qualidades de borracha, variando apenas a proporção de látex e sumo da planta. Em seguida, submeteram os materiais a uma bateria de testes para medir a resistência ao desgaste, elasticidade, durabilidade e outras propriedades.

Eles descobriram que com os dois únicos materiais era possível fabricar borrachas com diferentes propriedades. Tudo dependia da proporção. Uma mistura de uma parte de látex para uma parte de glória-da-manhã produziu elasticidade máxima, perfeito para as bolas de borracha. O látex puro, por ser forte e ter capacidade de amortecimento, é o mais apropriado para adesivos ou para ser adicionado a outros materiais – cerâmica e madeira. Para as sandálias, onde a resistência ao uso é a qualidade mais importante, uma combinação na proporção de três partes de látex para uma de glória-da-manhã fornece o material mais durável.

Quando Charles Goodyear inventou a vulcanização – um processo químico para a obtenção de borracha durável – misturando látex com enxofre em meados do século XIX, os Astecas, Olmeques e Maias já haviam fabricado borrachas de diferentes propriedades químicas, variando apenas a proporção de látex e glória-da-manhã três mil anos antes.

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