Tamanho do Homo floresiensis pode ser resultado de seleção natural

Pesquisadores mostram que a evolução do cérebro em primatas não seguiu apenas o caminho da maior massa cerebral.

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28 Janeiro 2010 | 14h16

Cérebro do Homo floresienses era bem menor do que a do Homo sapiens, com quem conviveu há 13 mil anos.

Cérebro do Homo floresienses era bem menor do que a do Homo sapiens, com quem conviveu há 13 mil anos.

Cérebros maiores, sinal de evolução? É o que a maioria pensa, mas é o que pesquisadores da Universidade de Cambridge e Durham tentam contrariar. O trabalho desenvolvido por uma equipe de cientistas ajuda a resolver a questão: o Homo floresiensis (também chamado de Hobbit, alusão ao povo pequeno descrito em livros de ficção) foi uma espécie separada ou apenas um indivíduo doente?

A equipe se baseou em dados do cérebro e da massa corporal medidas de restos fósseis. Em seguida, usou três diferentes métodos matemáticos para a reconstrução de evolução de padrões de evolução no cérebro através da árvore genealógica dos primatas, a partir de 37 já existentes e 23 espécies de primatas extintos.

Os resultados mostram que, enquanto os cérebros evoluíram para aumentarem em termos relativos e absolutos ao longo dos ramos da árvore genealógica, o oposto aconteceu em várias linhagens. Um exemplo seria a evolução dos lêmures-ratos ou dos cercocebus (um gênero de primata da família Cercopithecidae).

Em contrapartida, o estudo não encontrou nenhuma tendência global no aumento do tamanho do corpo – sugerindo que o cérebro e a massa corporal foram sujeitos a processos de seleção distintos nos primatas. Gorilas, por exemplo, têm cérebros grandes, mas o aumento da massa corporal na evolução dos gorilas modernos excede muito mais o aumento da massa cerebral. Por outro lado, as linhagens de outros primatas como Gibbos Colobus mostram um aumento da massa cerebral e diminuição da massa corporal.

As descobertas podem ajudar a resolver o mistério de Hobbit. Este primata de apenas um metro dividiu o planeta com nossa espécie até 13 mil anos atrás. Descoberto na ilha indonésia de Flores em 2003, alimentou calorosos debates – alguns acreditavam se tratar de uma nova espécie e outros achavam mais provável que uma doença tivesse sido a grande responsável pelo seu pequeno tamanho e, especialmente, o pequeno tamanho do cérebro.

Até então, a constatação de um primata com o cérebro tão pequeno na linha de evolução não condizia com o que pesquisadores entendiam a respeito da evolução do cérebro em primatas. “Nossas análises, juntas aos estudos sobre o tamanho do cérebro em populações de primatas isoladas, sugerem que talvez não devemos ficar surpresos com a evolução de um cérebro e corpo pequeno nos primórdios da espécie humana”.

Os resultados também aprofundam a compreensão de como nossos cérebros e corpos evoluíram e de como o processo de seleção pode ter sido responsável por isso. A pesquisa indica que a seleção atuou nos dois sentidos, geralmente resultando na evolução dos cérebros maiores, mas também produzindo cérebros menores.

Este é o primeiro estudo a reconstruir o padrão de evolução do cérebro pelos dados de todos os primatas.  Estudos anteriores, de outros pesquisadores, analisaram as possíveis vantagens e desvantagens de um tamanho maior do cérebro em primatas, mas poucos consideram com que frequência, onde e quando estas mudanças ocorrem na árvore genealógica dos primatas.

Segundo o autor principal do projeto, Dr. Nick Mundy, há uma tendência para considerar que a expansão do cérebro tenha ocorrido ao longo da evolução dos primatas. A interpretação é de que houve uma seleção para as habilidades cognitivas, com a necessidade de processar a informação social.

“Nós encontramos diminuição de massa cerebral ao longo de diversas filiais em toda a árvore genealógica dos primatas. É provável que a redução do tamanho do cérebro tenha ocorrido para atender novas necessidades ecológicas, significando que indivíduos com cérebros menores pudessem ser favorecidos por seleção natural”, explica Mundy.

Os períodos de evolução dos primatas que mostram a diminuição do tamanho do cérebro são de grande interesse, pois podem produzir insights sobre o processo de seleção e as restrições de desenvolvimento, que atuariam no tamanho do cérebro.

Quem é dono de um cérebro de ervilha?

Primatas têm cérebros relativamente grandes para o tamanho do corpo, se comparados a outros mamíferos. O menor cérebro do mundo pertence aos lêmures-ratos, com apenas 1,8g. O cérebro do homem pesa 1330 g.

O crescimento do cérebro começou cedo na evolução dos primatas, o que sugere um importante papel na origem e sucesso dos primatas modernos. A massa cerebral do homem é marcante, mas grandes cérebros evoluíram muitas vezes em primatas – os capuchinhos, por exemplo, são macacos da América do Sul que brigam em termos de tamanho de cérebro com outros macacos; sendo conhecidos pela habilidade de utilização de ferramentas para explorar alimentos.

Estudos recentes mostram que os cérebros de outros animais, como a vaca, o elefante, os pássaros e alguns outros vertebrados têm diminuído.