Manipulação de receptores no cérebro pode diminuir vontade de beber

Experiência com ratos mostrou ser capaz de reduzir a ansiedade e controlar o desejo com pouco ou nenhum risco de viciar.

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01 Março 2011 | 11h33

Pesquisadores da Universidade de Maryland identificaram dois genes associados com a “bebedeira” e que podem abrir portas para novos tratamentos contra o alcoolismo. A equipe descobriu que a manipulação de dois receptores do cérebro – os receptores GABA e TLR4 – é capaz de diminuir significativamente a vontade de beber. Experiências com ratos que tinham sido criados e induzidos a beber excessivamente mostram que a redução perdurou por pelo menos duas semanas.

Tratamentos atuais contra o consumo excessivo de álcool incluem o uso de medicamentos Revia e Campral, que podem controlar um pouco a vontade. Para aliviar os sintomas de abstinência, os médicos geralmente prescrevem remédios como Valium e Librium, que, sozinhos, já carregam um risco específico de vício. Além disso, ambos reduzem a ansiedade dos alcoólatras, mas não são capazes de reduzir os desejos por álcool.

A nova estratégia, no entanto, mostrou ser capaz de reduzir a ansiedade e controlar o desejo, com pouco – ou nenhum – risco de viciar. Para chegar aos resultados, os pesquisadores examinaram o efeito do álcool sobre os receptores GABA e TLR4. Os receptores GABA são uma classe que reage à neurotransmissores GABA, agindo como receptores inibitórios – acalmando ou inibindo a atividade de neurônios no cérebro. Receptores GABA reagem ao álcool, dando a calma e a sensação de euforia que reforçam o comportamento de quem bebe em excesso.

Por outro lado, o receptor TLR4 – tradicionalmente concebido como um receptor de imunidade nata, envolvido na neuroinflamação do cérebro – foi associado com microglias, células que sustentam as respostas inflamatórias no cérebro. “O que torna esta descoberta particularmente importante para o campo da neurociência é que nós estamos mostrando que o TLR4 desempenha um papel significativo nos neurônios, especialmente os neurônios que estão ligados ao receptor GABA”, explica Harry June, principal pesquisador do trabalho e professor de psiquiatria e farmacologia.


Para estabelecer a ligação entre os receptores e o álcool, a equipe manipulou essas vias nos roedores “beberrões”. Um vetor viral do herpes foi utilizado para entregar um agente de modificação de genes diretamente aos neurônios no cérebro, para atingir os receptores TLR4 e GABA. Os cientistas descobriram que este estímulo artificial foi capaz de fazer com que os ratos perdessem o interesse no álcool por até duas semanas após o procedimento.

De acordo com os pesquisadores, compostos que estimulem os receptores da mesma maneira podem ser uma esperança para quem não consegue abandonar a bebida. “Estes compostos podem agir como substitutos para o álcool, assim como a metadona age como uma substituta para a heroína. Ajudaria alcoólatras a parar de beber, dando-lhes alívio da fissura e ansiedade”, ressalta June.

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