Marcadores podem indicar evolução da doença de Chagas no coração

Médicos poderão prever que forma clínica sintomática o paciente infectado pelo Trypanossoma cruz poderá desenvolver no futuro.

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08 Março 2010 | 16h48

Durante a realização da sua tese de doutorado em saúde pública pela Fiocruz PE, Virgínia Lorena analisou a relação da produção de citocinas e as formas crônicas cardíaca e indeterminada da doença de Chagas. Crédito: Agência Fiocruz de Notícias.

Durante a realização da sua tese de doutorado em saúde pública pela Fiocruz PE, Virgínia Lorena analisou a relação da produção de citocinas e as formas crônicas cardíaca e indeterminada da doença de Chagas. Crédito: Agência Fiocruz de Notícias.

A tripanossomíase americana, popularmente chamada de mal de Chagas, é uma infecção causada pelo protozoário Trypanosoma cruz, responsável pela doença crônica que degenera o coração e o intestino. Durante a fase aguda, pessoas contaminadas desenvolvem alguns sintomas específicos, que não perduram por mais de dois meses. No entanto, a fase crônica pode levar até 20 anos para apresentar sintomas, evoluindo e causando danos irreversíveis no sistema nervoso e cardíaco sem ser descoberta. Mas agora alguns marcadores imunológicos podem ser usados para predizer que forma clínica sintomática o paciente tende a desenvolver. É o que afirmam pesquisadores do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães (CNPqAM/Fiocruz Pernambuco).

De acordo com a biomédica Virgínia Lorena, vice-coordenadora do Serviço de Referência em Doença de Chagas da Fiocruz PE, o novo método permite o tratamento adequado numa fase inicial da doença. Para chegar até ele, a pesquisadora analisou a relação entre a produção de citocinas – proteínas encontradas nas células, responsáveis pelas defesas do corpo – e as formas crônicas da doença de Chagas. Para isso, cultivou o sangue de 39 pacientes com antígenos recombinantes CRA e FRA, específicos do parasita causador da doença.

“Nossas análises, por meio de uma técnica chamada citometria de fluxo, demonstraram a produção de um alto nível das citocinas IFN-γ e TNF-α nas amostras dos pacientes que tinham a forma cardíaca grave da doença, quando comparado aos indivíduos portadores da forma indeterminada”, explicou Virgínia. Ela conta que o próximo passo é continuar acompanhando os indivíduos que tem a forma indeterminada. “Precisamos fazer isso por mais alguns anos para confirmar se realmente as citocinas IFN-γ e TNF-α têm a capacidade de funcionar como marcadores de prognóstico, ou seja, se, durante esse período, apresentam-se em níveis mais elevados e se esses indivíduos (que atualmente estão assintomáticos) começam a apresentar sinais de doença cardíaca”, comentou Virgínia. Os voluntários que participaram da pesquisa são pacientes do Ambulatório de Doença de Chagas do Hospital Oswaldo Cruz (Huoc) da Universidade de Pernambuco (UPE), parceiro da Fiocruz PE nos estudos sobre a enfermidade.


O teste, se aperfeiçoados nos próximos anos, pode servir como uma ferramenta de indicação de tratamento precoce e de melhoria de qualidade de vida dos pacientes. O estudo faz parte do projeto que está investigando marcadores de prognóstico para as formas severas da doença de Chagas, com financiamento de Biomanguinhos/Fiocruz e do CNPq. O trabalho, orientado pela pesquisadora Yara Gomes, do Departamento de Imunologia da Fiocruz PE, foi apresentado no Simpósio Internacional Comemorativo do Centenário da Descoberta da Doença de Chagas, realizado em julho, no Rio de Janeiro.

Doença de Chagas

O Brasil apresenta muitos casos de pacientes com a doença de Chagas, geralmente transmitida pelo “barbeiro” contaminado com o parasita – presente principalmente em áreas rurais -, mesmo tendo recebido a certificação internacional da eliminação da sua transmissão em 2006. Só em Pernambuco, 738 mortes foram associadas à doença entre 2000 e 2006. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que pelo menos 12 milhões de pessoas estejam contaminadas na América Latina.

Ainda não existe vacina para prevenir a doença que, ao lado da leishmaniose, está entre as mais negligenciadas no País, afetando majoritariamente pessoas pobres. O combate ao vetor, o barbeiro, é a medida de prevenção mais usada.

As informações são da Agência Fiocruz de Notícias.

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