Materiais descartados, raízes de plantas e bactérias limpam água

Em apenas três dias, os pesquisadores transformaram água suja de máquina de lavar roupa em água apropriada ao cultivo de hortaliças.

taniager

06 Maio 2010 | 01h31

Robert Cameron da Universidade do Estado da Pensilvânia, EUA, em frente ao biofiltro que usa raízes de plantas, materiais descartáveis e colônias de bactérias para limpar água residual. Crédito: cortesia de Amitabh Avasthi.

Robert Cameron da Universidade do Estado da Pensilvânia, EUA, em frente ao biofiltro que usa raízes de plantas, materiais descartáveis e colônias de bactérias para limpar água residual. Crédito: cortesia de Amitabh Avasthi.

Muitas pessoas têm utilizado restos de materiais descartados para construir uma infinidade de produtos de utilidade doméstica, ornamentos para festas e até mesmo papéis artesanais, sem contar com inúmeras outras criações que acabam se transformando em verdadeiras obras de arte. Mas como utilizar esses materiais para reciclar a água, sem que tenhamos de utilizar complexos processos de purificação para a remoção de seus poluentes?

A resposta foi dada pelo doutorando Robert D. Cameron e o professor de horticultura Robert D. Berghage, ambos da Universidade do Estado da Pensilvânia, EUA, em encontro de agricultura orgânica e sustentável realizado em Havana, Cuba, dia 5 de maio deste ano.

Preocupados com o esgotamento rápido da água potável em nosso planeta, Cameron e Berghage buscaram novas alternativas para purificar a água residual. Usando materiais descartados e uma combinação de plantas e colônias de bactérias, colocados dentro de tubos verticais, eles puderam purificar a água suja da máquina de lavar roupa, tornando-a apropriada ao cultivo de hortaliças.

De acordo com Cameron, este projeto é superior ao sistema de tratamento anterior. Ele requer muito menos espaço e é muito mais eficiente na remoção de contaminantes. Em apenas três dias eles conseguiram remover mais de 90 por cento dos poluentes da água. A água tratada apresentou baixos níveis de sólidos em suspensão e níveis não detectáveis da bactéria Escherichia coli. A quantidade de E.coli em cada mililitro de água é uma das principais medidas usadas como “índice coliforme” da água potável municipal.

O sistema de tratamento de água consiste em dois tubos plásticos corrugados de aproximadamente dois metros de comprimento por 30 cm de diâmetro. Os pesquisadores colocaram os tubos na posição vertical com separação de cerca de 90 cm entre eles, em uma base contendo 30 cm de terra e calcário moído.

Na base dos tubos, de 90 cm por um metro e meio, os pesquisadores plantaram papiros e rabo de cavalo – conhecida também como cavalinha. “Assim como em um pântano, as raízes destas plantas e as bactérias associadas a elas limpam a água à medida que ela flui sob a superfície da base e, através das duas colunas.”, disse Cameron.

As duas fossas condutoras foram preenchidas com camadas alternadas de rochas porosas, esterco compostado de gado, turfa, pneus triturados, cerâmica e calcário moído.

Os pesquisadores plantaram hortaliças e plantas ornamentais – tomates, pimentões, alecrim, manjericão e orquídeas – em buracos perfurados ao longo do comprimento dos tubos. Eles então bombearam aproximadamente 170 litros de águas residuais provenientes de uma máquina de lavar no topo dos dois tubos. Não apenas a malha apertada – criada pela terra, cascalho e raízes – filtrou os poluentes, como as colônias de bactérias entre as raízes comeram a matéria orgânica dissolvida.

Cameron acrescenta que “camadas de sucatas de ferro, ou de argila, também podem ser adicionadas para armazenar o fósforo”.

Os poluentes não metabolizados são armazenados na mistura e podem ser removidos do sistema quando se substitui periodicamente as plantas.

As análises químicas da água tratada mostraram uma redução de nitritos de mais de 90 por cento – de 24 partes por milhão para apenas 1,9 partes por milhão.

O sistema também é eficaz para a filtragem de boro. Apesar de o boro ser um micronutriente necessário para as plantas, ele é tóxico em altos níveis e pode acumular-se no chão. Segundo Cameron, uma amostra de água suja apresentava níveis de boro de 702 partes por milhão. Depois de três dias de tratamento, a água coletada na base das tubulações tinha apenas58 partes por milhão – uma redução de 92 por cento. Outros poluentes foram reduzidos de forma semelhante no período de dois a três dias.

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