Metirapona ajusta relógio biológico de ratos que sofrem de "jet lag"

Experiência mostra que novo medicamento poderá tratar alterações fisiológicas causadas pela mudança de fuso.

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25 Junho 2010 | 16h24

Experiências com roedores mostraram como alterações no fuso podem alterar seus diferentes relógios biológicos.

Experiências com roedores mostraram como alterações no fuso podem alterar seus diferentes relógios biológicos.

Quem já fez uma longa viagem de avião sabe que a alegria de chegar ao destino  pode demorar um pouco para aparecer. O famoso jet lag, alterações fisiológicas ocasionadas pela mudança do relógio biológico na mudança de fuso, pode dar muita dor de cabeça para quem saiu de casa com a luz do dia e chegou do outro lado do planeta de dia também. Entretanto, pesquisadores do Instituto Max Planck, na Alemanha, mostram que pode haver uma solução para o incômodo problema.

Experiências com ratos mostram que o relógio biológico se adapta ao “novo tempo” em velocidades diferentes. Como resultado, os processos no organismo ficam descoordenados. Entretanto, a equipe conseguiu fazer com que os roedores se adaptassem mais rapidamente ao ritmo circadiano alterado ao desligar o “relógio” da glândula supra-renal. Para isso, eles manipularam a síntese de corticosterona com a ajuda de metirapona. Resultado: ratinhos mais espertos mesmo depois do jet lag.

O trabalho fornece uma nova abordagem para o tratamento dos efeitos do jet lag e trabalho por turnos (em que a pessoa troca o dia pela noite), mostrando inclusive como influências externas podem atrapalhar nosso relógio biológico – desencadeando uma alteração na rede de relógios moleculares existentes em diferentes órgãos do corpo: batimento cardíaco, temperatura, exigência do sono e equilíbrio hormonal que ditaria comportamentos.


Se o relógio principal, localizado nos núcleos supraquiasmáticos do hipotálamo, é alterado, todos os demais relógios periféricos do corpo podem se desorganizar. Em nível molecular, significa dizer que sinais para a ativação de genes e síntese de proteínas fica “pra lá de confusa”.

“Os relógios internos e o relógio dos genes adaptam-se às influências externas em diferentes velocidades”, explica Gregor Eichele, diretor do Departamento de Genes e Comportamento do instituto. “Quando um organismo sofre de Jet lag, pode parecer que o mecanismo geral do relógio falha ao tentar pegar o ritmo. Como resultado, diversos processo fisiológicos não são mais coordenados”.

Apagando a luz

Desligar o relógio da supra-renal para recuperar funções causadas pelo jet lag parece ser uma atitude um tanto drástica, ainda mais porque a glândula é responsável por uma série de hormônios importantes – incluindo a adrenalina, noradrenalina e cortisol. Apagar a luz, portanto, pode ser arriscado demais. Em ratos, a liberação de corticosterona dependente do tempo foi crucial em permitir aos roedores adaptarem-se rapidamente ao novo horário”, explica Eichele.

Quando os pesquisadores administraram o agente ativo metirapona nos animais, o ritmo de corticosterona mudou como ocorre no sono ou na vigília. “Se os ratos recebessem metirapona na hora certa, eles se adaptavam rapidamente ao ritmo circadiano perturbado, ao passo que o hormônio do sono melatonina, que é geralmente usado para tratar jet lag, age majoritariamente gerando cansaço”. O problema na melatonina pode ser a direção do planeta que você vai: nem sempre ficar com sono é uma boa ideia. Por isso, a metirapona é promissora, já que ajusta o relógio biológico conforme o fuso.

Apesar de se mostrar útil em ratos, os pesquisadores ainda precisam se aprofundar em muitas pesquisas antes de dizer que a metirapona – um medicamento já usado no tratamento de algumas doenças – é a solução para a sua agenda tumultuada de trabalho e tem os mesmos efeitos observados nos animais. Na dúvida, ainda vale o famoso cafezinho.

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