Mosquito transgênico incapaz de voar é criado para combater a dengue

Pesquisadores usam engenharia genética para produzir fêmeas de mosquito Aedes aegypti incapazes picar e transmitir a doença.

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25 Fevereiro 2010 | 15h14

Pesquisadores usam engenharia genética para produzir fêmeas de mosquito Aedes aegypti que não voam.

Pesquisadores usam engenharia genética para produzir fêmeas de mosquito Aedes aegypti que não voam.

Poucas pessoas sabem, mas é a fêmea de um mosquito que sai em busca de alimento, sendo responsável pelas desagradáveis picadas. É justamente quando uma fêmea infectada pica um ser humano que alguma doença pode ser transmitida pela corrente sanguínea – a malária, a febre amarela e a dengue são adquiridas desta maneira. Pensando nisso, pesquisadores da Universidade da Califórnia-Irvine, nos EUA, resolveram abordar a estratégia de controle da dengue de outra forma: uma nova estirpe de fêmeas de mosquitos Aedes aegypti que simplesmente não pode voar.  

Os pesquisadores da UCI e seus colegas britânicos da Oxitec Ltd. e Universidade de Oxford criaram uma nova raça, em que uma modificação genética impede o desenvolvimento dos músculos da asa na prole feminina. Os mosquitos machos – que podem voar, mas não podem picar ou transmitir a doença -, carregando esta nova informação genética, cruzarão com fêmeas selvagens que transmitirão o gene para a geração seguinte.  

Espera-se que as fêmeas desapareçam rapidamente na natureza, reduzindo o número de mosquitos e diminuindo (ou até eliminando) a transmissão da dengue. Se o procedimento for liberado, a nova leva poderia reprimir a população de mosquito nativa entre seis e nove meses. É uma alternativa segura e eficiente para inseticidas nocivos.

Para o professor Delsio Natal, da Faculdade de Saúde Pública da USP, a tecnologia pode preocupar muitas pessoas, já que pode transformar algo que a natureza produziu há milhares de anos. “Mas, ao pensar no Aedes aegypti como o mosquito que transmite o vírus da dengue e o dano que ele causa no mundo, com milhares de pessoas adoecendo e algumas até morrendo pela forma hemorrágica da doença, é uma pesquisa válida”.

A dengue provoca graves sintomas semelhantes à gripe e está entre as mais problemáticas questões de saúde pública, principalmente em países tropicais. Há entre 50 e 100 milhões de casos anualmente, colocando em risco cerca de 40% da população mundial.

“Não há vacina para a dengue e a população não faz a lição de casa direito, que seria a limpeza de seu ambiente, evitando os descartáveis, vasinhos com água para uma florzinha, a piscina abandonada, o ralo, a calha… Então o mosquito prolifera e vem a dengue, quase como um castigo”, ressalta Natal. “Então, nestas condições, a ciência chega com uma solução milagrosa”.

Para Natal, a ideia elaborada por pesquisadores norte-americanos é uma forma de controle bastante específica da espécie, e é justamente isso que se procura nas tecnologias de controle de pragas. “Neste sentido, o método é bem diferente dos inseticidas, que geralmente são de largo espectro e matam, sim, o mosquito, mas matam com ele uma série de outros organismos”, explica. “Além disso, os inseticidas tradicionais, organoclorados, organofosforados, carbamatos e piretróides, podem levar à resistência dos mosquitos após o uso intensivo. A espécie passa a conviver bem no meio tóxico sem morrer, o que é também uma forma de seleção genética, ou seja, há mudança de frequência do gene vantajoso. Há também uma alteração genética induzida pelo homem, não tão diferente do caso proposto pela engenharia genética”.

Embora a pesquisa pareça atraente, Natal acredita que o método possa não dar conta do recado. O professor ressalta que a maneira mais inteligente de combater a dengue ainda é pelo conscientização, esforço de cada cidadão e envolvimento popular. Afinal, é também do povo a expressão ”melhor prevenir do que remediar”.

O estudo foi publicado na edição online do dia 22 de fevereiro da Proceedings of the National Academy of Sciences.

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