Mutações em genes podem explicar gagueira persistente em adultos

Pesquisa revela que quase 10% das pessoas que sofrem de disfemia têm uma variação em três genes que afeta metabolismo celular.

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11 Fevereiro 2010 | 18h58

A maioria das crianças que gagueja irá superar o problema ao crescer, mas cerca de 1% permanece com os sintomas

A maioria das crianças que gagueja irá superar o problema ao crescer, mas cerca de 1% permanece com os sintomas

A gagueira pode ser o resultado de uma falha no processo através do qual componentes celulares de regiões específicas do cérebro são discriminados e reciclados, indica um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Nacional de Surdez e Outros Distúrbios de Comunicação (NIDCD) http://www.nidcd.nih.gov/index.asp. Três genes foram identificados como “fonte” do problema em voluntários do Paquistão, EUA e Inglaterra.

As mutações em dois genes já tinham sido relacionadas a outros raros distúrbios metabólicos envolvidos na reciclagem celular. Agora, os cientistas já sabem que papel o terceiro gene exerce em distúrbios da fala.

“A causa da gagueira permaneceu um mistério para médicos e pesquisadores durante séculos”, diz James Battey, diretor do NIDCD. “Este é o primeiro estudo a identificar mutações genéticas específicas como a possível causa da gagueira, um distúrbio que afeta três milhões de americanos, o que pode levar a muitas opções de tratamento”.

Como a gagueira geralmente afeta várias pessoas de uma mesma família, pesquisadores suspeitaram durante muito tempo que se tratava de um problema genético. Estudos anteriores liderados pelo geneticista Dennis Draya, realizados em um grupo de famílias paquistanesas, indicaram que uma região do cromossomo 12 teria uma variação que causava o transtorno.

Na pesquisa atual, Drayna e sua equipe refinaram a pesquisa nesta região identificada do cromossomo. Sequenciaram os genes em torno de um novo marcador e identificaram mutações em um gene conhecido como GNPTAB nos membros das famílias afetadas pelo distúrbio. Este gene existe em todos os animais superiores, ajudando a codificar uma enzima que auxilia da decomposição e reciclagem de componentes celulares – um processo que acontece no interior de uma estrutura celular chamada lisossomo.

Os pesquisadores então analisaram genes de 123 indivíduos paquistaneses que gaguejam, 46 de famílias “gagas” e 77 pessoas não relacionadas – bem como 96 voluntários que não sofrem do problema. Americanos e ingleses também fizeram parte do estudo: 270 que são gagos e 276 que não sofrem de gagueira. Os resultados mostraram que quem gagueja apresenta a mesma mutação genética da grande família paquistanesa. Os cientistas também encontraram três outras mutações no gene GNPTAB.

O GNPTAB codifica a enzima com a ajuda de outro gene chamado GNPTG. Além disso, uma segunda enzima, chamada NAGPA, atua no processo seguinte. Juntas, essas e enzimas compõem o mecanismo de sinalização que as células usam para orientar uma variedade de enzimas do lisossomo para que ele faça o seu trabalho.

O GNPTAB e os genes GNPTG já foram relacionados a duas doenças graves metabólicas conhecidas como mucolipidosis II e III – causadas por uma desordem no armazenamento do lisossomo. Grandes depósitos no lisossomo, que deveriam ser reciclados, podem ocasionar problemas de desenvolvimento do cérebro, coração, fígado e outras estruturas do corpo.  

Você pode perguntar por que gagos, com mutações nesses genes, não têm complicações mais sérias? Por que eles não têm ML? Drayna explica que os distúrbios são recessivos. O indivíduo precisa ter duas cópias de um gene defeituoso em ordem para desenvolver o problema. Quase todas as pessoas “aparentadas” do estudo que sofriam de gagueira tinham apenas uma cópia da mutação. Mais: mesmo com a gagueira, a proteína ainda é produzida, mas não exatamente da forma como deveria. Nas doenças sérias, a proteína não é produzida.

A próxima questão a ser investigada é se uma terapia de reposição poderia substituir a enzima corrompida, tratando a gagueira de forma eficiente.

Gagueira

A gagueira é um distúrbio de fala em que a pessoa repete ou prolonga sons, sílabas ou palavras, interrompendo o fluxo normal da fala. Pode prejudicar bastante a comunicação e a qualidade de vida de uma pessoa. A maioria das crianças que gagueja irá superar o problema ao crescer, mas cerca de 1% permanece com os sintomas. As terapias atuais para adultos com gagueira focam-se em estratégias como a redução da ansiedade, controle da respiração e da fala, além do uso de dispositivos eletrônicos quem ajudam na fluência.