Nem só de batalha: anticorpos também atuam como enfermeiros

Soldados do sistema imunológico atuam reparando danos na mielina, dando insights para tratamentos de lesões no cérebro e medula.

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14 Junho 2010 | 16h36

Ultrapassar a barreira hemato-encefálica pode ser uma forma de fazer com que estes anticorpos que agem no reparo de nervos lesioados curem lesões no cérebro e medula espinhal.

Ultrapassar a barreira hemato-encefálica pode ser uma forma de fazer com que estes anticorpos que agem no reparo de nervos lesioados curem lesões no cérebro e medula espinhal.

Os anticorpos são soldados treinados para batalhas. Ferozes, lutam contra bactérias, vírus e outros patógenos que ameaçam o corpo. Entretanto, muitas vezes o estereótipo agressivo dá lugar a algo mais meigo. Eles também podem atuar como enfermeiros, ajudando o organismo a cuidar – ou eliminar – lesões em nervos. A descoberta, resultado de um estudo da Escola de Medicina de Stanford, nos EUA, pode lançar luz sobre derrames e traumas na medula espinhal.  

Em um novo estudo conduzido com roedores e publicado hoje na Proceedings of the National Academy of Sciences, os cientistas mostraram pela primeira vez que anticorpos são muito importantes para a reparação de nervos danificados no sistema nervoso periférico – tecido neural que se estende do cérebro e medula espinhal, como o nervo ciático, onde há circulação de anticorpos.

“Ninguém sabe por que, mas células nervosas no sistema nervoso central falham em regenerar após uma lesão enquanto que as do sistema nervoso periférico regenerar vigorosamente”, diz Bem Barres, principal autor do estudo. Intrigados com a questão, os pesquisadores passaram a buscar uma explicação para o fato de que os anticorpos têm acesso limitado a barreira sangue-cérebro.

As células nervosas transmitem impulsos eletroquímicos em longas distâncias por meio longas projeções tubulares chamadas axônios. Estes axônios são envoltos em uma camada de isolamento formada por uma substância gordurosa chamada mielina.

“Após a lesão no nervo, a degeneração da mielina do dano é rapidamente eliminada nas regiões periféricas, mas não no sistema nervoso central”, diz Barres. “De fato, em um cérebro humano ou medula espinhal lesados, a degeneração da mielina permanece o resto da vida assim. Mas, após a lesão do nervo ciático, por exemplo, a degeneração da mielina é eliminada dentro de uma semana ou menos”.

Anticorpos carinhosos

Em laboratório, os pesquisadores usaram roedores mutantes que não produziam anticorpos e demonstraram que, ao menos em ratos, o reparo da lesão no nervo ciático é bloqueado – bem a remoção da parte corrompida da mielina. A simples injeção de anticorpos de outros ratos saudáveis permitiu que a ferida fosse restaurada, com a eliminação da parte lesada.

A equipe também demonstrou, em partes, como isso ocorre: os anticorpos grudam na parte lesionada da mielina, revestindo a mesma e conclamando outras células do sistema imunológico, os macrófagos, para ajudarem a eliminar a parte danificada.

Em um segundo experimento, a equipe injetou anticorpos que atuam especialmente em uma proteína que existe apenas na mielina. O fato de ter havido reparo nas lesões – e de que outros anticorpos não tenham ajudado no processo – prova que não basta ser anticorpo: é preciso ser um anticorpo associado à degeneração da mielina para sinalizar o reparo do nervo no sistema nervoso periférico. Além do mais, seria perigosa a presença de anticorpos que não diferenciassem mielinas danificadas de boas (o que poderia levar a uma doença autoimune). Contudo, mielinas que sofreram danos têm características estruturais em suas superfícies muito diferentes das sadias.

Como ultrapassar a barreira hemato-encefálica

Ok, tudo funciona bem no sistema nervoso periférico, mas o sistema nervoso central parece não funcionar nos mesmos moldes. Entretanto, os pesquisadores acreditam que as descobertas dão sugestões tentadores para instigar a reparação das células nervosas danificadas na medula ou no cérebro.

De acordo com o time, uma ideia coerente seria ultrapassar a barreira hemato-encefálica ao fornecer proteínas antidegeneração de mielina diretamente no líquido espinal. Novas pesquisas poderiam testar abordagens diferentes a partir dos resultados deste trabalho para o desenvolvimento de terapias em pacientes que sofreram derrames e lesões na medula espinhal.

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